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O estranho João Ramos

Naquele dia, vi meu avô olhar de longe o tio João Ramos e resmungar: “- Este moço sabe lidar com cavalos e eles parecem …

Naquele dia, vi meu avô olhar de longe o tio João Ramos e resmungar:

“- Este moço sabe lidar com cavalos e eles parecem entender o que ele fala”. Eu não sabia o que o avô queria dizer com aquilo. Na verdade, o tio era mesmo um homem estranho – sempre distante e caladão.

De quem eu gostava mesmo era da tia América, sempre vivaz e alegre, que me abraçava com efusão, apertando meu rosto contra seus grandes seios macios.

Mas, desde então, apurei o ouvido às conversas no galpão dos peões. E soube de uma ou duas coisas que me deixaram ainda mais confuso. Quem falou foi um velho chamado Ermenegildo, que passava a vida encerando arreios, buçais e cabrestos. Também se entretia matando escorpiões com a ponta da bota; mas mesmo sentado em seu canto do galpão, sabia de tudo o que se passava na fazenda. Pois o dito do tal Ermenegildo é que o João Ramos conhecia hechizos que tiravam o sangue ruim das pessoas e o mau olhado dos bichos. 

***

Quando contei essas coisas para minha mãe, ela ficou zangada por eu acreditar em conversas de peões. Disse que o velho Ermenegildo morava na fazenda por caridade, desde o dia em que o avô apareceu picado por uma jararaca. O velho puxou da faca e cortou uma cruz no pé de meu avô. Depois, chupou o sangue enegrecido, até cair desmaiado.

Mesmo com a zanga de minha mãe, passei a olhar João Ramos com outros olhos. Ele não era como os outros; sentava em um tronco de cinamomo, passando horas quieto, olhando a gente à distancia. Diziam que era dono de umas tantas tropas de cavalos, mas nunca o viram montar. O que ele gostava mesmo era passear em sua charrete azul e branca, puxada por um baio trotador.

Outro grande prazer de João Ramos eram os cigarros de palha, que ele mesmo preparava, com minúcias e enorme vagar, tanto que até impacientava os que estavam por perto: 

“- João Ramos, esse pito sai hoje ou fica prá amanhã?”. 

***

Eu me quedava ao longe, olhando, enquanto ele sentava no cepo à porta do galpão, retirava da bainha a faca prateada e começava o vagaroso preparo do palheiro. Começava alisando a palha de milho com o dorso da faca, até que ela ficasse fina como papel de seda. Depois, cortava a palha do tamanho exato e se dedicava a picar o fumo negro em pequenas rodelas. Colocava a faca de lado e o amassava na palma da mão direita, desfiando até ficar sem nódulos. Então era o momento de preencher a palha com o fumo e enrolar o cigarro bem fino, como ele apreciava. Finalmente, dobrava as duas extremidades para o fumo não cair e atava o meio do cigarro com um filete de palha. 

Enquanto isso, a fazenda se agitava, os peões ocupados com os animais ou carregando coisas para lá e para cá. E o tio João Ramos de lado, apreciando tudo, com meio sorriso a caminho da boca. Até parecia que se divertia com a azáfama, sem a mínima intenção de fazer parte dela. Ouvia a falação, dava uma olhada para o gado no campo ou espiava o vento balançando as árvores.

Quando notou que eu o observava, tocou a aba do chapéu e tirou do bolso um isqueiro de isca, daqueles que custavam a produzir faísca. Tentou uma, duas, uma porção de vezes, então assoprou a brasa e lentamente acendeu o pito. Levantei de onde estava, cansado de esperar por alguma novidade que agitasse a calmaria da tarde.

E, naqueles tempos, todos os dias aconteciam coisas extraordinárias na fazenda do Passo Grande.

***

Um minuto depois, o negro Edu chegou a galope, esbaforido, avisando que haviam dois garanhões enredados em uma cerca de arame farpado. Estavam lesionados, escoiceando como loucos e não deixavam ninguém chegar perto. Foi como se um raio caisse do céu em pleno terreiro. Peões largavam o que estavam fazendo e crivaram o Edu com perguntas. Meu avô irrompeu pela porta da frente e desfez a roda, para saber quais os cavalos feridos.

Pelo canto do olho, vi João Ramos jogar fora o palheiro e caminhar para o lado das cocheiras, se movimentando sem fazer ruido, como a sombra de um cipreste em tarde de inverno. Em seguida, a charrete azul-e-branca saiu por detrás da casa, o baio em trote puxado, em disparada para além dos capões.

O avô mandou alguém recolher cabrestos e remédios para curativos. Montou e saiu a galope, seguido pelos outros. E eu fiquei parado no terreiro, junto a mulheres e crianças, aflito e sem saber o que os homens estavam fazendo.

***

Era quase noite, quando eles voltaram. Os homens tagarelavam muito, mas o avô estava de cara fechada quando desmontou do zaino e entrou em casa. Minha mãe disse depois que ele repetia em voz baixa:

“- Brujerías, brujerías…”.

Esperei por alguem tempo, mas a charrete azul-e-branca do tio João Ramos não apareceu e ninguém falou sobre o que havia acontecido.Dois dias depois, viajamos de volta para a cidade e minhas perguntas ficaram sem resposta e em pouco tempo, foram esquecidas.

Meses depois, voltamos à fazenda, o negro Edu nos esperava no cais e foi logo passando as novidades: o avô mandara construir um novo açude e a tia Vieira finalmente conseguira um noivo.

Fez uma pausa e disse que o velho Ermenegildo tinha sido picado por um escorpião e passara dias entre a vida e a morte. Mas fora salvo por um corte em cruz na perna, que drenara todo o sangue envenenado.

Quando indaguei sobre o tio João Ramos e os cavalos feridos, Edu me olhou de lado, sentiu o olhar duro de minha mãe e desconversou, dizendo que os garanhões não estavam mais na fazenda e que foram avistados do outro lado do rio Camaquã. E calou-se pelo resto da viagem.

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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