De tempos em tempos surge uma onda que varre todos os países, invade a nossa imaginação mas não chega a assustar. O fim do mundo é algo impensável. É uma abstração tão etérea que não tem a menor chance de fustigar os nossos mais distantes temores. O planeta adoece por conta da espécie que povoou sua superfície, e depois se comportou como uma praga ao infestar seu ambiente e afetar o equilíbrio da sua natureza climática. Mas a sua agonia é lenta. Nada indica que vá se consumir num Big Bang espetacular, exceção feita ao terror nuclear, o novo pesadelo da humanidade.
Ao que parece, o fim dos tempos é fomentado por duas grandes indústrias: a cinematográfica e a de atividade religiosa, ambas suscetíveis à estreita relação do lucro com o cataclisma. A primeira fatura com a saga dos grandes filmes de desastre, ainda mais dramáticos e impressionantes com o avanço absurdo da tecnologia digital. E a segunda fatura vendendo recompensas imediatas e loteamento no céu. Seja como for, ambas são imbatíveis no ramo das ilusões.
No meu modesto entender, fim do mundo é a proliferação de padres pedófilos, de uns anos para cá. Na verdade, a novidade é a denúncia. Esta pratica hedionda vem do tempo em que se confinavam homens nos monastérios e os proibiam de terem relações sexuais com mulheres. Fim do mundo é a igreja católica gastar 4 bilhões de dólares na defesa destas aberrações de batina. Fim do mundo é o ressurgimento de organizações neonazistas pelo mundo afora, inclusive aqui no Brasil, no estado do Paraná.
Ainda assim acho tentadora a idéia de, súbito, abrir-se um imenso clarão no céu. O clarão é visto nos lugares mais remotos do planeta e ao mesmo tempo em Nova Yorque, em Washigton D.C., em Paris, em Milão, na Avenida Paulista e no Parcão em Porto Alegre. Do centro deste clarão de luminosidade fosfórea de um azul de ftalocianina – o azul mais sobrenatural que já vi na face da terra -, surge uma nave extraterrena que, após visitar todos os lugares mencionados, prepara-se para ir embora. Seus tripulantes entediados não percebem nada de extraordinário na face da terra, além da vaidade gotejante, da ambição desenfreada e da demência de muitos dos seus habitantes. No entanto, o comandante da nave ordena ao piloto:
– Espere um pouco, aproxime-se mais daquele parque.
– Mas senhor Grande Líder, ali é apenas o Parcão de Porto Alegre.
– Eu sei, mas acabei de ver um ser humano com a maior irradiação de energia da vaidade lambisgóia que já vi nesta viagem.
– Lambisgóia? Não conheço esta palavra, comandante.
– Não importa, você entendeu o sentido. Vamos levar aquele sujeito para estudos.
A nave emite um poderoso facho de luz gravitacional que suga o presidente da Associação Riograndense de Propaganda e depois se afasta numa velocidade imponderável.

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