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O garção da Brasserie Dauphine

O oceano era de cor-de-chumbo e as grandes ondas explodiam nas rochas, espalhando chuvas de espuma. As muralhas estão cobertas de musgo e da …

O oceano era de cor-de-chumbo e as grandes ondas explodiam nas rochas, espalhando chuvas de espuma. As muralhas estão cobertas de musgo e da alta torre, que um dia vigiava a costa da Cornualha, só restam ruínas. Percorro a costa escarpada, até encontrar o que os guias dizem ter sido a caverna do lendário Merlin, mas por mais que procure, não há nada de mágico.

Encontro apenas um prosaico grupo de escandinavos, vestindo bermudas coloridas e disparando câmeras digitais. Em vão, tento disfarçar minha desilusão de não encontrar o que procurava e termino jogando a culpa nas minhas fantasias de juventude.

***

Eu já havia me surpreendido anteriormente em escapadas parecidas. Nas viagens a trabalho, para relaxar ou quebrar a rotina, procurava uma cidadezinha das proximidades, onde houvesse uma igreja românica para explorar ou um castelo medieval com estórias para contar.

Em algumas ocasiões, estes passeios me levaram a pequenas aventuras ou a inesperados deslumbramentos. Como quando almocei pão e choriço com o faroleiro da desolada Ponta da Roca, um pedaço de Portugal, que desafia o oceano.

Ou a surpresa de chegar a Orvieto, na Itália, e deparar com os mosaicos do século XIV da fachada da catedral sendo descerrados, depois de dez anos de restauração.

No entanto, na viagem de trem para o oeste da Inglaterra, não esperava surpresas nem aventuras, apenas sonhos. Muito antes de ser refúgio de piratas e filibusteiros, Penzance possuía um promontório que teria sido submerso durante uma violenta tempestade. Arrastando juntos o reino encantado de Camelot, o Rei Arthur, Lancelot e a bela Guinevére.

Mesmo com a consciência de que aquela caminhada era inútil, subo até o penhasco de Land’ End e ali me demoro, à espera de algum vestígio das estórias que ouvi na cabeceira de minha infância.

***

Despreocupado, perambulava por Paris de outono, garimpando aqui e ali anônimos bistrôs e livrarias. Percorrendo o Quai des Orfévres, tenho uma impressão, a mesma que sentimos quando chegamos a lugares que nos parecem estranhamente familiares. Me instalo na esplanada de um café e a sensação continua. Digo a mim mesmo: “já estive aqui antes…”.

Mais adiante, na Île de la Cité, estão as torres azuladas do Palais de la Justice. Deixo a imaginação correr – nos porões, abaixo do nivel do Sena, ficava a antiga Conciergerie, onde Maria Antonieta ficou encarcerada antes de enfrentar a guilhotina.

Peço um calvados da Normandia e me flagro contando as janelas do segundo andar do lado sul, logo debaixo das mansardas. Ali, em algum lugar, era localizada a sede da Brigada Criminal, chefiada pelo Comissário Jules Maigret. Um personagem que Georges Simenon criou com tamanha veracidade e força, que ficou definitivamente incorporado na paisagem imaginária de Paris.

***

Bebo meu calvados e saio para a praça, no momento em que são acesas as luzes ao longo do rio. Aquela devia ser a “hora azul”, quando Maigret mandava um de seus inspetores encomendar alguma coisa para comer e beber.

Paro por um momento na esquina, olhando para um lado e outro, como que se estivesse procurando por alguém. Mas aspiro fundo o ar da noite e resolvo retomar meu caminho, antes que as armadilhas da imaginação me carreguem para longe.

Por um pouco mais, eu ficaria naquela esquina, esperando o garção da Brasserie Dauphine atravessar a praça com sua bandeja de sanduíches e copos de cerveja.

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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