Minha penúltima coluna contou um pouquinho do cidadão e do publicitário Carlos Maia de Souza, o Carlito Maia.
Estava decidido a iluminar um pouquinho mais o caráter desse caráter exemplar – no mínimo para respirar ares menos fétidos que os atuais – quando fui envolvido, no 1º de abril, por um vendaval pútrido vindo do passado através da Ordem do Dia do Comandante do Exército, general Francisco Albuquerque, festejando, com orgulho, o 31 de março de 1964, data em que oficiais golpistas do Exército puseram tropas na rua.
Não há idéia decente que resista a uma provocação indecente.
Tomado de fúria ética e histórica, enumerei fatos do período mais criminoso e mais sórdido da história pátria. A fúria fundiu, numa só pessoa, dois dos milhares de torturados – freis Ivo e Tito: “… Quem torturou e enlouqueceu Frei Ivo?” Antonio Goulart, atento, mandou-me um e-mail: “Caro Mario: o nome do frei torturado, que ficou louco e se suicidou, era Frei Ivo ou Frei Tito? Tua crônica me deixou a dúvida. Abraços do Antonio Goulart, Porto Alegre”.
Resposta: “Frei Ivo, Tito e outros foram torturados pela equipe Sérgio Fleury, mas quem enlouqueceu foi o Tito, suicidando-se num convento francês. Antonio Goulart, Revista do Globo anos 50, pois não? Abração, para não perder a rima. Mario.”
Acrescento agora: freis Ivo e Fernando, também dominicanos e torturados, como Tito, testemunharam sobre os porões daquele período tutelado pelo Exército, o qual tanto orgulha o general que me atrapalhou.
Entretanto, a dialética – que acaba com a hipótese do pinto quando um ovo entra na frigideira – proporciona, às vezes, boas compensações, pois saí de um general e entrei num gênio. A mudança de idéia lembrou-me o trapézio do cérebro, onde balouçavam as idéias do inefável Brás Cubas, cujas memórias póstumas põem a nu o humor ácido e refinado de Machado de Assis e deleitam, de forma inesquecível, todo leitor que não esteja brigado com o idioma e nem com a vida.
Não resisti e fui à primeira obra prima machadiana onde, logo no prólogo do livro publicado em 1881, inaugura-se a metalinguagem na literatura brasileira. Revisitei a imagem do “trapézio do cérebro” que tanto me encantou, como encanta-me. Lembrei-me, também, de “O Velho Diálogo de Adão e Eva”, onde Machado nos ensina que, na paixão, as palavras não contam:
Brás Cubas . . . ?
Virgília . . . . .
Brás Cubas . . . . . . . . . . . . .
. . . . . .
Virgília . . . . . !
Brás Cubas. . . . . .
Virgília . . . . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . ! . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . .
Brás Cubas . . . . . . . . .
Virgília . . . .
Brás Cubas . . . . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . ! . .
. . ! . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . !
Virgília . . . . . . . . . . . . . ?
Brás Cubas . . . . . !
Virgília . . . . . !
Nesta altura o computador informa-me que há mais de 2.200 caracteres digitados, tarde demais para voltar à idéia primeira e intoxicar o leitor com tantos alhos e bugalhos.
Tenho absoluta certeza que Carlito Maia, se vivo, entenderia que, de fato, o general atrapalhou o cronista e, com seu proverbial senso de justiça, absolveria a mim e condenaria o general.
E tu, leitor?
Inté.
SERVIÇO:
1.”Memórias Póstumas de Brás Cubas”, Machado de Assis www.bivirtual.futuro.usp.br/textos
2. “Vale o escrito”, Carlito Maia, Editora Globo
3. “Carlito Maia a irreverência equilibrista”, Erazê Martins, Boi Tempo Editorial
4. “As tiradas mordazes do dr. Brizola”, Antonio Goulart, Já Editores

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