Colunas

O Gibi de um Milhão de dólares

“New York – Um exemplar raro da primeira revista em quadrinhos do Super-Homem foi vendido nesta segunda-feira, 22, por US$ 1 milhão, superando todos os recordes …

“New York – Um exemplar raro da primeira revista em quadrinhos do Super-Homem foi vendido nesta segunda-feira, 22, por US$ 1 milhão, superando todos os recordes anteriores de edições raras de “comics”.

A edição é um exemplar de 1938 do Action Comics número 1, que é considerado o Santo Graal das revistas em quadrinhos. A capa da revista, que custou US$ 0,10, mostra o Super-Homem levantando um carro.”

***

O Telmo Seganfredo era meu colega de turma no Rosário. Morava na subida da João Telles, em um casarão cercado de figueiras, jacarandás e pés de jasmim-manga. Mas o que a gente invejava no Telmo não era a bela casa nem o jardim florido; era a grande coleção de gibis, herdada de um tio desenhista e fanático por estórias em quadrinhos. Esse tio, que diziam ser meio amalucado, colecionava gibis como se fossem um tesouro, possuindo milhares de revistinhas, incluindo exemplares esgotados com heróis que nem existiam mais. Quando sua visão começou a falhar, passou a coleção ao sobrinho, mediante a promessa de cuidar dela com carinho e nunca emprestar os gibis – nem para os melhores amigos.

E quando implorávamos para levar um deles para ler em casa, Telmo  repetia a mantra aprendida do tio: “Quando se empresta um gibi, perde-se a revista e o amigo vai junto”.

O que nos fazia suspeitar que, para os Seganfredo, os gibis eram mais valiosos do que os amigos do Telmo. Mas não era para menos – aquela não era uma coleção qualquer. Todos nós tínhamos nossas revistinhas em quadrinhos guardadas em casa. Eu as comprava na banca do Bom Fim, usando os mil-réis economizados na merenda. E que, depois de lidas, eram arrumadas em meu cofre secreto – uma velha caixa de madeira, com a palavra “Riesling” gravada na tampa. Era o meu bem mais precioso, que com o correr dos anos, ficaria um tanto dilapidado, pois alguns dos gibis que eu mais prezava, foram emprestados para amigos da rua, que nunca mais os devolveram.

***

A coleção do tio do Telmo era diferente de tudo o que conhecíamos – mal cabia em uma pequena saleta, com prateleiras que iam até o teto, as revistinhas arrumadas por ano e por editora. Havia gibis em inglês, espanhol e em francês. Em muitos deles, a data de capa era anterior ao ano de meu nascimento. Estas, as mais antigas, o tio de Telmo mantinha guardadas em uma prateleira com tampo de vidro e fechadura.

Como estava proibido de emprestar, Telmo nos convidava para ler gibis aos sábados à tarde. Aquelas sessões de leituras eram uma viagem fascinante a um mundo de fantasias. Com as janelas azuis abertas para o jardim florido, escolhíamos os gibis ainda não lidos (eram centenas) e nos espalhávamos pelo chão, para acompanhar as aventuras de Flash Gordon, Buck Rogers, Jim das Selvas, Mandrake, Tocha Humana e Namor, o Principe Submarino.

Em uma prateleira mais alta, fora de nosso alcance, ficava a coleção completa das revistas do Agente Secreto X-9 – que eram leitura adulta, exclusiva do tio do Telmo.

***

Com dificuldade de ler as letras miúdas dos balões das historietas, o tio de Telmo aparecia, por vezes, na saleta de leitura. E ficava um tempo por ali, nos observando absortos nas aventuras dos heróis de seus gibis. Em certos momentos, me parecia que ele se sentia um pouco enciumado por dividir conosco seus tesouros.

Algum tempo depois, ao ver nossa persistência de voltar para ler mais e mais gibis, ele entrou na saleta e nos disse que tinha uma surpresa para nós. Retirou do bolso do colete uma pequena chave e abriu o compartimento das revistas antigas. Escolheu algumas e anunciou:

“ – Agora, vocês vão conhecer os gibis mais preciosos da coleção”.

Sentou-se na velha poltrona ao canto e nos chamou para perto. Com gestos rituais, mostrou algumas revistinhas, contando sobre heróis que já haviam desaparecido. Então, perguntou para todos e para ninguém:

“- Alguém sabe como nasceu o Super-Homem?”

Não esperou resposta e exibiu o gibi intitulado “Action Comics”, que tinha na capa o Super-Homem, erguendo nos braços um carro verde, para o espanto dos bandidos ao seu redor. A data era “Junho de 1938”. De forma reverencial, sem nada de amalucado, o tio do Telmo folheou a revista, narrando em voz alta o surgimento do “Homem de Aço”, aquele que voava mais alto do que um pássaro, corria mais do que um trem expresso e aparava no peito as balas de revólver.

Depois de alguns minutos parou de ler, mas continuou descrevendo quadrinho por quadrinho, que estavam gravados em sua memória. No entanto, a historieta era curta e quando ele anunciou “Continua no próximo número”, todos soltaram um “ohhh” de desconsolo. Então, com um tom dramático na voz, ele leu o último quadrinho:

“- Assim começam as eletrizantes aventuras do mais sensacional herói de todos os tempos: Super Homem – uma maravilha humana, uma mente extraordinária, ele veio para redesenhar o destino do mundo!”.

E nós aplaudimos, encantados com os dons teatrais do tio de Telmo, que se ergueu, fechou o precioso gibi no armário e saiu pela porta, fazendo um gesto de quem voa para longe.

Tempos depois, ele viajou para a Itália e nunca mais voltou. Todas as vezes em que voltava ao casarão da João Telles, eu colava o nariz no vidro da estante, onde estavam guardados os gibis proibidos.

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
Compartilhar:

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.