
“Faz muito tempo que ele se foi, mas nós, os tangueros de Bueno Aires, nos lembramos dele todos os dias”, escreve o jornalista Horacio Ferrer, em depoimento sobre Aníbal Troilo, o mítico acordeonista, morto em 1985. Seus carinhosos apelidos mostram o que ele significava para os argentinos. O chamavam de “El bandoneón mayor”, “Buda del Tango”, “El Gordo” ou simplesmente “Pichuco”, como era conhecido em Abasto, o bairro onde nasceu e para onde sempre voltava.
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Horacio Ferrer é o que se chama de “poeta de arrabal”, um rótulo que Buenos Aires reserva a músicos e intelectuais dedicados a cultivar as tradições portenhas, muitas em via de extinção ou esquecimento. Ele conviveu com Aníbal Troilo, que o considerava como um filho e ao qual concedeu entrevistas e confidências. Este material foi reunido no livro “El Gran Troilo”, uma tomografia da música, teatro e literatura da época de ouro do tango argentino, nos anos 50 e 60. O perfil que ele traça de Aníbal Troilo é o de uma lenda viva. De um músico da mesma estirpe de Edmundo Rivero e Astor Piazzola, que o acompanharam nas antológicas interpretações de “Volver” e “Quejas de Bandoneon”. A ênfase maior de Ferrer é no lado humano, sensível e generoso do “Gordo Triste”. Seus adjetivos são copiosos: “Um homem que era puro coração”, que nunca pronunciou um palavrão, tão comuns no linguajar lunfardo. Quando se irritava, seu mais pesado xingamento era chamar alguém de “brócoli” – a verdura que ele detestava.
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Os amigos contam que ele não gostava de sair de Buenos Aires e apenas se sentia em casa em lugares que lhe eram familiares. Certa vez, sua mulher, Zita Troilo, deparou com ele na entrada do Teatro San Martin. Tinha um ar perdido e estava quase soluçando.
“¿Que te pasa pichuquito?”, perguntou.
“Quiero volver a Buenos Aires”, foi a resposta.
A Buenos Aires de Troilo ficava nas ruas de Abasto, onde ele ouvia tango desde a infância. Era um portenho de raiz e quando não estava tocando, saía a caminhar pelas ruas e esquinas de sua geografia sentimental: a Avenida Corrientes, entre Florida e Callao, as esquinas de Paraná e Lavalle, de Paraguay e Talcahuano, de Soler e Gallo.
Ao resgatar a memória de “Pichuco”, Ferrer descreve o amigo como um músico ético, de uma grande derechura. Com candura, elogiava seus músicos, mesmo quando cometiam erros clamorosos. Não sabia contar piadas e era sempre o último a entender uma insinuação maldosa, ou um comentário picaresco.
Depoimentos de críticos de música o apontam como um reinventor do tango moderno. Mas ele recusava o rótulo e se aborrecia quando o chamavam de sucessor de Gardel. No entanto, como o mestre, sabia de memória os arranjos de mais de 120 tangos. Não gostava de partituras, dizendo:
“– Quando se lê música, não se toca o tango”.
O livro conta que, quando do velório de Troilo no teatro San Martin, uma fila quádrupla dava voltas ao quarteirão. Eram músicos e gente anônima dos barrios. Cada um deles havia recebido uma palavra de carinho, um convite para um copetín ou um incentivo para continuar tocando a vida.
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Aníbal Troilo se emocionava quase às lágrimas quando, pela milésima vez, tocava ao bandoneón velhos tangos como “La Cumparsita”, “Mano a Mano” ou “Cambalache”. E censurava os que discutiam a nacionalidade do tango: “ Hermanos, o tango é música e sentimento – não pertence nem aos argentinitos nem aos uruguayitos – é patrimonio de todos os que tem um coração”.

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