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O Guerreiro

Ele não apenas lia lábios, mas sabia ler pessoas. Nos amigos e colegas, Francisco Stockinger conseguia até sentir uma ponta de tristeza ou um …

Ele não apenas lia lábios, mas sabia ler pessoas. Nos amigos e colegas, Francisco Stockinger conseguia até sentir uma ponta de tristeza ou um certo rasgo de felicidade. Coisas de um homem com a alma engajada com a arte.

Em 1959, fui entrevistá-lo em seu antigo atelier, na rua Pelotas, para a Folha da Tarde, que queria uma matéria sobre o chargista do jornal, que se transformava em um grande escultor.

A um canto, havia uma belíssima escultura de gesso, patinada de verde. Acariciei sua cabeça inclinada, seu dorso curvado. Perguntei-lhe como a chamava e ele, um tanto enciumado por meu interesse por uma peça tão singular, disse apenas:

“- Esta é a minha “Adolescente”.

E voltou a falar com entusiasmo sobre as esculturas que preparava para a exposição em um grande museu de arte. Aqui e ali, espalhados no pequeno atelier, alguns guerreiros de pequeno porte, mas ainda sem exibir a ferocidade das grandes figuras que viriam a seguir.

Ao longo da entrevista, desviei várias vezes a atenção para a pequena figura de cabeça inclinada. Quando ia saindo, Xico, sem hesitar, me entregou a escultura, dizendo que era minha. Relutei e disse que jornalistas não têm dinheiro para comprar arte. Ele deu de ombros:

” – Depois a gente fala. Leva logo, que em algum tempo, vai valer o dobro.”

***

Havíamos sido vizinhos de mesa na redação da antiga A Hora, o jornal que precedeu a desaparecida Ultima Hora e que se transformou na vitoriosa Zero Hora.

Quando cheguei, como interino da coluna de cinema, Xico já estava por lá, vindo da Ultima Hora, do Rio, empurrado por dois artistas gaúchos, em temporada carioca – Vitório Gheno e Honório Nardin.

A redação de A Hora era povoada por gente de talento e temperamento extraordinários, que intimidavam os recém-chegados como eu – o secretário Erasmo Nascentes, nosso guru Josué Guimarães, o diretor Maia Netto, a inefável Gilda Marinho, o Carlos Nobre, o Cândido Norberto, o Nelson Boeira Faedrich e o Ernesto Valdez.

Xico fazia um pouco de tudo – o “capitão” Erasmo Nascentes o havia incumbido de uma nova e complicada tarefa: diagramar a primeira página. Então, Josué Guimarães o requisitou como chargista de seu “O Diário de Porto Alegre”, que assinava como D.Xicote, um quixotesco chicoteador dos hábitos e costumes dos políticos da época.

Algumas vezes, tarde da noite, a rotativa fazendo tremer o prédio inacabado da rua São Pedro, o chargista e o interino de cinema se encontravam ao pé das escadas de concreto bruto e lá vinha o convite: 

“- Vamos a pé?”.

A caminhada era cansativa e compulsória – o jornal sempre atrasava o pagamento. Nos despedíamos na esquina da Ramiro Barcelos, ele seguia para sua casa na rua Pelotas e eu subia a lomba do Hospital Moinhos de Vento.

***

Logo, o diagramador e chargista abandonaria as primorosas gravuras que fazia, inspirado pelo gênio de Osvaldo Goeldi. E passou a se dedicar de pele e alma aos mármores, às pedras, à sucata e aos pedaços de ferro.

Enquanto talhava a pedra e fundia o metal, Xico construiu inestimável coleção de amigos, com o mesmo carinho áspero dedicado ao seu jardim de cactus.

A lista dos artistas e intelectuais que tiveram o privilégio daquela convivência é um verdadeiro “who”s who” de uma inesquecível geração  de brasileiros: Livio Abramo, Bruno Giorgi, Marcelo Grassmann, Flávio de Carvalho, Maria Leontina, Claudio Correa e Castro, Pietro Maria Bardi, Severo Gomes, Danilo De Pretti, Milton DaCosta, Clovis Graciano…

E de gaúchos: Vasco Prado, Josué Guimarães, Erico Verissimo, Iberê Camargo, Mário Quintana, Aldo Malagoli, Trindade Leal, Roberto Eduardo Xavier, Flavio del Mese, Romulo Fialdini, Evelyn Berg, Paulo Fontoura Gastal, Milton Mattos, Lauro Schirmer, Marcos Faerman, Lygia Nunes, Lauro Miguel Sturm, Lara de Lemos, Dante de Laytano, Leo Fuhro… e por aí vamos.

***

Aos amigos mais chegados, confidenciava poucas de suas muitas memórias secretas, mas de seus prazeres, nem tanto. Por onde estiver agora, deve estar relendo poemas de Rainer Maria Rilke, pensando no bife acebolado da Santo Antônio e, talvez, com os ouvidos atentos ao apito do trem de sua infância, nos confins de Santo Anastácio.

Xico Stockinger foi maior do que sua obra, um guerreiro e um lutador indomável, como suas grandes figuras de ferro. Incansável, às vezes espinhoso, como seus cactus queridos, quando se refugiava no mundo silencioso de sua surdez beethoviana, para lá domar o mármore, a pedra e dobrar o metal.

Mas, para quem o conhecia bem de perto, ele era ao mesmo tempo doce e suave, como uma certa adolescente de cabeça inclinada.

Que me olha agora, com imensa tristeza, do alto da estante de livros.

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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