Tio Armando era um homem de poucas palavras. Falava tão pouco, que quase não lembro como era sua voz. Meu pai dizia que era porque sua mulher nunca se calava, dando ordens aos empregados ou rezando o rosário em voz alta. Ele se refugiava no jardim, cuidando quietamente de suas rosas vermelhas. Mas quando o tio Armando falava, valia a pena escutar o que dizia. Quando me ouviu reclamando pelo sumiço de um brinquedo, sentenciou:
“- Teu brinquedo não está perdido. Ele foi para o limbo das coisas”.
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Desde aquele dia, passei a prestar atenção nas coisas que sumiam de uma hora para outra. Quando a mãe revirava meu quarto, à procura de um pé de meia ou de um velho pulover, eu procurava me justificar, dizendo que, amanhã ou depois, as coisas iriam reaparecer. E quase sempre ganhava de volta um olhar de estranheza, porque acho que o tio Armando não havia lhe contado o segredo do limbo.
Um belo dia, entendi de fazer uma lista das minhas coisas que tinham sumido, sem deixar traços. Vasculhei armários, gavetas e os esconderijos de nossa casa na Vasco da Gama. Era dali que meus guardados costumavam simplesmente se evaporar. Iniciei o inventário com as estampas do sabonete Eucalol, mais o distintivo do Clube do Vingador e o Globo Juvenil, com o Príncipe Submarino enfrentando o Tocha Humana.
O tempo foi passando, a lista de perdidos cresceu, mas acabou esquecida em algum lugar. Aos poucos, os brinquedos e as quinquilharias de infância cederam lugar aos pequenos tesouros de minha juventude: as calças compridas com suspensórios, a coleção de livros de Karl May, a caneta-tinteiro Parker 21 azul e o laço de normalista da primeira namorada. No entanto, não da noite para o dia, mas da mesma forma misteriosa, as coisas continuaram sumindo. Eu as guardava com todo o cuidado nas gavetas e nos armários, mas quando procurava por elas, não estavam mais lá.
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Quando fiz 15 anos, o tio Armando veio nos visitar e me levou até a Caixa Econômica, na Oswaldo Aranha, anunciando uma pequena surpresa. Me entregou uma caderneta vermelha, com um depósito inicial, como presente de aniversário. Fiz uma cara de desentendido quando ele explicou que dinheiro ajuda a repor as coisas que perdemos.
Depois disso, raramente via meu tio. Andava ocupado com os estudos, mas precisava mostrar a caderneta vermelha, onde eu depositava os trocados que sobravam da mesada que recebia do pai. Em um domingo, toquei a campainha do sobrado da José Bonifácio e me disseram que ele estava de cama e não podia receber visitas. Recorri a meu pai, que balançou a cabeça com tristeza, dizendo que eu devia rezar e estar preparado para o pior. Senti a morte rondar minha família – foi quando descobri que o que eu havia perdido, quando criança e adolescente, não tinha nenhum significado e que as perdas verdadeiras são aquelas que não conseguimos repor nem com todo o dinheiro do mundo.
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Era um domingo chuvoso de outono. Havia uma multidão de amigos e vizinhos na frente do sobrado, e meus pais precisaram abrir caminho para conseguir entrar, me mandando esperar do lado de fora. Permaneci em pé no portão, olhando as rosas do jardim. Quando o cortejo com o corpo passou, tentei jogar uma rosa vermelha sobre o caixão. Mas não deu tempo – eles o colocaram no carro fúnebre e eu fiquei sem dizer adeus ao meu padrinho.

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