
Naquele outono, Fermino das Dores estava inquieto, assombrado por pressentimentos que não entendia nem sabia explicar. Não sentia culpas e, desde muito, aprendera a não alimentar remorsos ou arrependimentos. Herdara lembranças prazeirosas de pessoas com quem convivera e de lugares por onde passara, mas por algum motivo, andava se estranhando, como se vivesse uma vida que não era a sua.
***
Era uma tarde fria e chuvosa, o gado fora cuidado e os peões, recolhidos aos galpões. Fermino sentiu a calmaria do momento e foi explorar os guardados no sótão da casa. Hesitou por um momento antes de abrir um velho baú – ali estavam vestígios de tempos passados, de pessoas que moraram naquela casa antes dele, manuseando os mesmos objetos, sentando nas mesmas cadeiras, talvez aspirando o cheiro dos jasmineiros que ele sentia agora.
Aos poucos, o baú mostrou seus pequenos mistérios: escrituras de terras, uma garrucha de dois canos, moedas de prata, uma luneta de navio, além de desbotadas fotografias de desconhecidos, sem datas. Objetos sem alma, que mais escondiam do que revelavam sobre a vida de seus donos.
Foi então que notou um último objeto no fundo do baú. Era um livro com a capa de couro quase desfeita, mostrando sinais de muitos anos de uso. Fermino pensou:
“- Este tem o que contar”.
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Sentou-se junto à janela que escoava a luz-de-fim-de-tarde. Abriu o livro e leu o título: “Años de Andanzas”. Fora publicado em 1926, em San Antonio de Areco, na Argentina. O antigo dono havia desenhado a capricho sua assinatura, mas ele não reconheceu o nome. Acomodou-se na cadeira e começou a ler, virando com cuidado as páginas, tão finas que quase se rompiam ao toque de seus dedos.
À medida que lia, personagens e paisagens pareciam vivos e familiares, como se Fermino os tivesse conhecido de perto. A estória se passava nos anos 1900 e contava a vida de um gaudério em intermináveis andanças pela imensidão do pampa. Se chamava Fabiano Cáceres e era acompanhado por um jovem peão, que penava para aprender a árdua rotina da vida campeira. O personagem central era um homem rude e altivo, que se declarava tropeiro por profissão e payador por caráter.
Continuou lendo, sentindo a inquietação crescer dentro de si. Ele também havia sido um aprendiz de tropeiro e o peão do livro se parecia cada vez mais com aquele que ele havia sido um dia. Como aquele jovem, ele aprendera as suas duras lições observando e imitando os mais velhos. Foram eles que o ajudaram a entender as cañadas da vida.
***
No final do livro, acampado em um lugar ermo e distante de tudo, o velho Cáceres toma da guitarra e canta junto ao fogo de chão. Fermino foi tomado por um breve sobressalto – ele se viu de regresso à infância, ouvindo pelas frestas de seu quarto, as toadas das Festas de Reses:
“As felicidades que queremos
estão nos dourados frutos
de uma árvore milagrosa.
A árvore está lá, mas não a encontramos,
porque ela está sempre onde a pomos
mas nunca a pomos onde estamos”.
Ele parou de ler – afinal, porque se sentia assim, assustado como um menino e frágil como um doente? Era apenas um velho livro, saído do fundo de um baú sem dono.
Fermino havia tido uma generosa quota de momentos felizes. Mas a lembrança daqueles momentos fazia sua solidão ainda maior. Suspirou – não era uma solidão sofrida, foram momentos que não se perderam, porque estavam com ele.
***
Na última página do livro, havia um verso, desenhado com a mesma caprichada caligrafia de quem lera aquele livro muitas e repetidas vezes:
“Que importa que uma estrela esteja morta
se ela ainda brilha no fundo de nossa noite
e de nosso confuso sonho?”.
E abaixo, uma data em letras miúdas. Fermino das Dores fechou o livro, mais assustado do que antes. A data na última página era a mesma de seu nascimento.

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