Quando Irene Cora viu o negro demente no meio do lixo, ficou intrigada. Foi por acaso, era o seu primeiro dia no hospital e ela decidira conhecer todas as dependências do manicômio. Aquela exploração detalhada era uma forma de ocupação territorial; foi desse modo que planejou apresentar-se aos vestíbulos da loucura. Deparar-se com aquele interno no meio do lixo, nos fundos do pátio, próximo ao grande muro cinzento, poderia ter sido apenas um olhar de varredura, sem registro. Resignada, dirigia-se ao corredor de acesso às celas dos casos mais severos, quando, súbito, parou. Depois, voltou-se com lentidão e caminhou hesitante, até ficar próxima do homem sentado sobre os calcanhares em meio ao lixo. De imediato, seu olhar foi atraído para as mãos rudes e sujas, de unhas carvoentas. O homem, imerso numa atividade febril, com gestos rápidos rasgava os jornais velhos e, depois, os amassava até formar uma pasta, como se fosse papel machê. Irene Cora suportou muda e imóvel os cheiros que se desprendiam da pestilência do entulho e do homem. Espantada, observou a habilidade com que enredava a pasta de papel numa trama feita de barbantes primordiais, sustentados por arames e galhos secos. Na base, ele havia engastado pedaços de metal, panos desfiados, cascas de coco e garrafas plásticas, tudo guarnecido por novelos de cordas, em formato esférico, com impressionante planejamento gráfico.
Irene Cora pressentiu estar próxima de algo perturbador, não sabia o quê exatamente. Se de força primitiva, do jorro criativo, ou o modo como as mãos engenhosas tramavam a captura do equilíbrio da obra absurda e original. Eram formas idílicas, embaralhadas com figuras de pesadelos, nas quais o escultor trazia à luz do sol os retalhos da sua alma.
Irene Cora desviou o olhar e descobriu, um pouco adiante, outras criações: a sugestão difusa de uma nau, com suas velas esfarrapadas, a navegar no mar de lixo. Ali, ao lado, garrafas penduradas balançando-se ao sabor da brisa, mais adiante flores bizarras e retorcidas de sofrimento.
Justo nesse momento, o enfermo virou-se e mirou seus olhos. Após alguns segundos, o homem recolheu do chão uma tampinha enferrujada e ofereceu a ela. Irene Cora sorriu e aceitou o presente, mas não conteve as lágrimas, diante do olhar desamparado do negro no meio do lixo.
Irene Cora saiu dali e foi direto para a Administração onde estava os prontuários de cada interno. Teve muito trabalho para localizar a ficha do paciente. O documento corrompido pelo tempo guardava poucas informações. Havia trinta anos que estava internado. Sofria de uma enraizada esquizofrenia, filiação desconhecida, nenhum vínculo de parentesco, idade desconhecida, e apenas o nome: Arthur Bispo do Rosário.
Em seus plantões, Irene Cora passou a visitar o quarto de Bispo do Rosário, um cubículo abarrotado de materiais e objetos da sua arte. De início, como uma cega, tateava atrás de uma brecha por onde pudesse penetrar nas muralhas do isolamento do seu paciente, lá onde estava, em sua dimensão etérea. Foi um longo período de aproximação e aprendizado até que, finalmente, conquistou sua confiança. Desde então, Bispo do Rosário alternava momentos de incontinência verbal e longas ausências, porém, numa dessas noites em que estava falante, revelou à Irene Cora o seu segredo: disse que veio salvar os homens e reconstruir o mundo. Deus, pessoalmente, o havia ordenado. “Veja, é com essa a roupa que vou para me apresentar a Ele.” Dizendo isso, mostrou um manto onde havia bordado, com complexa riqueza de detalhes, figuras e nomes de amigos e amigas, imaginários, ou não, “para não esquecer”, na hora de recomendá-los a Deus. “Pode bordar o meu nome?” – perguntou Irene Cora. “Muitos querem e poucos merecem” – respondeu, sem esclarecer se iria atender ao pedido da médica.
Anos mais tarde, quando estava na Galeria Jeu de Palme, em Paris, onde as peças do artista estavam sendo expostas, Irene Cora se comoveu ao recordar da manhã ensolarada, quando o encontrou trabalhando no meio do lixo, nos fundos do manicômio. E da noite em que foi avisada, por telefone, da morte de seu mais querido paciente. Observava uma vitrine expositora, onde potentes refletores iluminavam o famoso manto, em que Bispo do Rosário bordara nome da médica. Irene Cora chorou com timidez ao lembrar-se que as autoridades brasileiras negaram ao preto velho o seu maior desejo:
apresentar-se a Deus, vestido com o manto bordado por ele, durante toda a sua vida, especialmente para aquela ocasião.
N. A . Arthur Bispo do Rosário nasceu na cidade sergipana de Jarapatuba e passou a maior parte de sua vida internado na Colônia Juliana Moreira, o maior e mais antigo manicômio do Rio de Janeiro, onde produziu mais de 900 peças de arte, entre esculturas e peças bordadas, com materiais recolhidos do lixo. Bispo do Rosário morreu na indigência, e sua obra só foi conhecida no Brasil após obter reconhecimento internacional, tendo sido objeto de inúmeras publicações especializadas em arte, nos Estados Unidos e na Europa. Seu acervo foi exposto na Bienal de Veneza, na Itália, e na Galeria Jeu de Palme, em Paris. A crítica europeia associou os seus trabalhos aos artistas de vanguarda do século 20, como René Magrite e Marcel Duchamps.
A personagem Irene Cora, na vida real, trata-se da psicanalista Rosângela Grilo Magalhães, na época estagiária da instituição Juliano Moreira. Sua convivência com Bispo do Rosário foi marcada por cumplicidade, respeito e carinho mútuo.

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