“O marinheiro que caiu em desgraça com o mar” é um destes filmes que foi visto, debatido e analisado somente por quem tem mais de 40 anos. É uma estória de crianças, cujos pais estavam ocupados demais com a sobrevivência, numa ilha remota. Além de envolvidos com suas atividades produtivas, aqueles adultos estavam mergulhados em problemas pessoais, por conta de uma estranha promiscuidade sexual entre os casais amigos. Com tamanha frouxidão de controles e limites, as crianças desenvolveram códigos de conduta em grupo.
A solidão e o primitivismo do lugar contribuiram para a criação de critérios profundamente distorcidos, de moral, justiça e recompensas na alma inocente dos meninos e meninas. O título do filme entrega o episódio em que o marinheiro visitante é morto a punhaladas por ter olhado com uma certa insistência para a mãe de uma deles. Cada um dos adolescentes pactuou da barbárie com um golpe de punhal, e depois foram brincar. A trama, bem elaborada e convincente, ilustra com todas as nuances, o modo como a selvageria aflorou espontânea, sem nenhuma trava ou hesitação. Tudo dentro de uma lógica circunstancial que fez todo o sentido para aquelas crianças.
A bala perdida que matou o jovem Ígor Carneiro dos Santo é emblemática. Ela simboliza a mesma lógica sinistra do filme que tanto nos impressionou. O acéfalo que acionou o gatilho obedeceu ao comando de uma “cultura “. Ao atirar a esmo, além de matar o garoto e devastar a família, acertou em cheio no coração de uma sociedade inteira. Ele sabia que ao atirar podia matar alguém, só não tem a menor noção do que significa matar alguém. Bang, e mais nada. Saiu dali, no máximo excitado, numa apoteose imbecil, sentindo-se poderoso. Este psicopata é o maldito fruto da sua origem, da sua história e da educação limite zero. A vida tende a ser uma madrasta cruel para as gerações criadas sob o limite zero.
Quem matou o jovem Ígor foi o ‘pode tudo’, o ‘liberou geral’, a competição selvagem como balizadora de sucesso, a (con) fusão dos “games ” sanguinários com a vida real, mais álcool na cabeça (a zoada, a zoada), uma briga de torcidas e um revólver, na mão de um debilóide. Mesmo que venha a ser preso, ele vai dizer o que todos os maníacos que matam a sangue frio dizem. Que não se lembra direito e não sabe por que atirou. A memória da mãe de Ígor agora vai recrudescer no sentido inverso, vai lembrar de modo doloroso cada detalhe do filho morto, para sempre. Não demora vai surgir na mídia outra tragédia absurda entre jovens surtados. E o garoto Ígor será enterrado pela segunda vez.

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