Colunas

O menino que lia Érico

Por José Antônio Moraes de Oliveira

Tenho lembranças que começaram quando eu espiava por cima do ombro da mãe, enquanto ela folheava a revista argentina Para Ti, à procura de receitas de empanadas e de notícias sobre cantantes de tango. Sua favorita era Libertad Lamarque e também Hugo del Carril, que ouvíamos no Telefunken 12 válvulas, sintonizado na Rádio Belgrano. Mas, talvez, impaciente com aquele guri sempre encarapitado em seu ombro, deu um jeito de providenciar minhas próprias leituras.

***

Aquele foi um feliz natal de verdade, quando abri meu presente embrulhado em papel colorido – eram dois álbuns ilustrados: as  “Aventuras do Avião Vermelho” e “O Urso com Música na Barriga”. Lembro quando o pai apontou na capa o nome do autor daquelas estórias encantadas. Um nome que ficou em minha memória afetiva – Érico Veríssimo.

Eu despertava para o mundo maravilhoso dos sonhos e fantasias. Pouco tempo depois, descobri nas historietas da revista O Tico-Tico meus primeiros heróis – a trinca Bolão, Reco-Reco e Azeitona. Eu mal conseguia esperar a hora de fechar os cadernos com as lições do dia para voltar àquelas divertidas e tolas trapalhadas. Então, a cada ano que passava, maior era minha fome de leituras – e chegou a vez das aventuras em quadrinhos do Gibi Mensal e do Globo Juvenil. E os ingênuos personagens do O Tico-Tico cederam lugar aos paladinos da justiça – o Capitão Marvel, o Mandrake, o Tocha Humana e Centelha, o Homem Borracha, sem esquecer meu favorito, Fantasma, “O Espírito Que Anda” .

Em mais de uma vez, fui repreendido por meus pais por passar horas com o nariz mergulhado nas aventuras de Tarzan, o Rei das Selvas e de Arsene Lupin, Ladrão de Casaca. Mas ao final daquele ano, fui absolvido, quando cheguei em casa com nota dez em redação e leitura, incluindo um “Muito Bom” rabiscado no boletim pelo Irmão Lourenço, professor de Português.

***

O tempo passou rápido. Como estudante de jornalismo, estou com a turma da faculdade visitando a Livraria do Globo para conhecer os redatores da Revista do Globo. Como um dos “entrevistadores” indicados pelo professor, escolho um senhor grisalho, que parecia feliz entre jovens leitores. Gaguejei uma ou duas perguntas, lamentando não ter comigo meu precioso Avião Vermelho para ganhar um autógrafo de Érico Veríssimo.

***

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
Compartilhar:

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.