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O paraíso perdido nas nuvens

Mal havia acomodado meus joelhos contra o encosto da poltrona da frente, quando a aeromoça, com sorriso plastificado, oferece balas em um cestinho também …

Mal havia acomodado meus joelhos contra o encosto da poltrona da frente, quando a aeromoça, com sorriso plastificado, oferece balas em um cestinho também artificial. Ao lado, a senhora de cabelos brancos pede mais uma vez que alcancem sua bagagem de mão com suas pílulas contra enjoo. Escapo para minha leitura – o livreto “Welcome Aboard”, presente de um velho amigo, executivo aposentado da American Airlines.

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Havia uma vez um tempo – não muito distante – em que as viagens aéreas eram um verdadeiro prazer. Se embarcava em uma jornada pelo paraíso, a recompensa sonhada por executivos estressados e sem tempo para lazer. O stress e a falta de tempo continuam os mesmos, enquanto as viagens aéreas se transformaram em um transtorno, quando não um pesadelo.

Quando pisei pela primeira vez no macio tapete azul-noite da First Class da Pan American, viajava a serviço e não tinha idéia de quanto custavam aqueles luxos. Mas a experiência de estar – literalmente – nas nuvens, sentindo-me muito acima das pessoas lá embaixo, valeria cada centavo de dólar. O ingresso no paraíso começava quando a elegante hostess nos acomodava em microônibus, para fazer o curto percurso entre o lounge exclusivo no aeroporto e o deck superior do Boeing 747. Quando os demais passageiros embarcavam, nossos casacos estavam guardados em cabides e nossas flutes de champanha estavam sendo servidas.

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“Welcome Aboard” era distribuído pela American Airlines às tripulações entre os anos 60 e 70.  Lista as regras de etiqueta a bordo, tais como apresentação, postura, linguagem e como tratar passageiros, inclusive a antecipação de seus pedidos e necessidades. Uma pequena bíblia sobre a perdida arte de voar. Ensina que o passageiro pagante, em negócios ou férias, deseja esquecer o que deixou em terra e precisa se sentir como em um hotel nas nuvens. Pode-se aprender uma ou duas coisas com o livrinho – que as amenidades e pequenos luxos de bordo foram criados com o objetivo de fazer os passageiros esquecerem de que estão em um frágil tubo de alumínio a 10 mil metros de altitude.

Já os rituais das refeições a bordo, como escolhas de pratos e vinhos, não são uma invenção moderna, mas herança dos anos 50, quando os vôos dos quadrimotores a hélices duravam até 36 horas cruzando oceanos e continentes. O célebre vôo 01 da Pan Am, que dava volta ao mundo, ligando San Fancisco a Hong Kong, estava equipado com uma adega de 500 garrafas, oferecia quatro refeições quentes e um piano de verdade tocando no deck superior, durante o “happy-hour”.

Os pioneiros da aviação comercial conheciam algo de psicologia, pois sabiam que estômagos cheios e uma razoável dose de álcool no sangue inibem a adrenalina. E que passageiros adormecidos em travesseiros macios e cobertas quentes não sentem medo de alturas nem perturbam o descanso da tripulação.

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Quando a TWA e a American iniciaram os voos de costa-a-costa nos Estados Unidos, estavam competindo com confortáveis trens expressos, dotados de cabinas-dormitório, vagões-restaurante e camareiros à disposição 24 horas. Quando a Pan Am começou a voar para o Extremo Oriente, batizou seus aviões de Flying Clippers, evocação aos velozes veleiros mercantes do século 19.

No livro “Voando através da América – Uma Experiência para Lembrar”, Daniel L. Rust relembra uma cena durante um vôo em 1970, na classe executiva de um Lockheed 1011 da TWA na rota New York / Paris: passageiros vestindo roupas de domingo, a aeromoça sorridente cortando fatias do fumegante roast beef e o chefe-de-cabine servindo vinhos da Borgonha em cálices de cristal.

O autor antevê que essas cenas se desvaneceriam no tempo, para se transformar em prazer reservado a celebridades e endinheirados. O que se confirmou, com o ato de desregulamentação do ar de 1978 e com a entrada em serviço dos grandes jatos da Boeing e Airbus, que jogaram para baixo o preço das passagens aéreas.

Estava nascendo o turismo massificado e novos aeroportos precisaram ser construídos para receber centenas de milhares de passageiros. Em inútil tentativa de aumentar suas receitas, as empresas aéreas dobraram o número de poltronas, reduzindo o espaço para nossos pobres joelhos.

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Em algum lugar remoto do deserto do Novo México, antigos Stratocrusiers, Constellations, Boeings 707s e 747s lentamente se transformam em sucata. Os arqueólogos do futuro talvez encontrem ali algumas relíquias daqueles tempos: uma ou outra taça de cristal lapidado, ou talheres de prata gravados com esquecidos logotipos.

Mas, certamente, não encontrarão o veterano piano que tocava nas alturas do Oceano Pacífico, a bordo do Clipper Pride of the Sea.

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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