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Recordar é viver Eu ontem sonhei com você Terminadas as comemorações do IV Centenário de São Paulo, em 1954, decidi curvar-me ao “chamamento” e …

Recordar é viver

Eu ontem sonhei com você

Terminadas as comemorações do IV Centenário de São Paulo, em 1954, decidi curvar-me ao “chamamento” e ser um homem de teatro. Eu conhecera o Rio só como turista e escolhi a então capital federal para dar asas à vocação que, em latim, é o ato de chamar. Lá desembarquei, num ônibus da Viação Cometa, no carnaval de 1955.

O grande sucesso era um futuro clássico da MPB: “Recordar é viver, eu ontem sonhei com você…”.

Decidira, também, que o objetivo era só, exclusivamente teatro, e nessa decisão nem entrava TV. Como profissão, teatro era trabalho incerto. Decisão é decisão e entrei pela primeira vez na Biblioteca Nacional para ler “Fome”, romance autobiográfico do norueguês Knut Hansun (1859-1952), prêmio Nobel de Literatura de 1920. Essa leitura foi ensaio existencial. No início, antigas militâncias na política estudantil garantiram cama e chuveiro na UNE e um cartão para comer quase de graça no restaurante Calabouço, onde qualquer problema com a comida era resolvido, gratuitamente, no ambulatório ao lado.

Através do homem de teatro, o amigo Luís de Lima, português radicado no Brasil e já falecido, consegui uma vaga como ator e assistente de direção em “Vestido de Noiva”, de Nelson Rodrigues, cuja família produzia o espetáculo no Teatro Regina, hoje Dulcina, na Cinelândia. O diretor, Léo Jusi, em uma das “pontas” onde eu era um repórter, “marcou” as minhas duas cenas comendo um sanduíche. A partir do ensaio geral, eram acrescentados dois sanduíches ao meu salário.

Quinta-feira e domingo eram tardes de vesperais. E, aos sábados, duas sessões noturnas. Naquela época, as peças, normalmente, eram apresentadas em três atos e com dois intervalos. O trabalho semanal começava na terça e acabava no domingo, num total de nove apresentações. Na contabilidade do meu estômago, 18 sanduíches/semana!

No “Vestido de Noiva”, Oswaldo Loureiro, egresso do Coro do Municipal, iniciava a carreira de ator de teatro, depois ampliada para o cinema e para a TV. No elenco, entre muitos, estava Rubens Teixeira, depois professor de teatro em Campinas. A amizade desse trio, iniciada logo nos ensaios do “Vestido…”, já comemorou 60 anos. Entre outras lembranças, a dádiva de trabalhar com madame Morineau e início de minha amizade com Nelson Rodrigues que, antes de todas as apresentações, ia ao meu camarim bater papo. Paulo Goulart – já nos conhecíamos de São Paulo – estava em cena quando soubemos do nascimento de sua primogênita com Nicette Bruno: Bárbara.

Oswaldo Loureiro tinha as refeições garantidas, pois morava com os pais, na Lapa, onde eu, já num hotel, dividia um quarto com um universitário do Maranhão. Rubens e eu fazíamos rodízio pelos restaurantes populares. Apesar de a peça haver ficado em cartaz muitos meses, por diversas ocasiões nossos salários atrasaram. Como era impossível atrasar o pagamento do hotel, nesses apertos o almoço ficava inviável. Então o Rubens ia para a Caixa Econômica, penhorava o relógio e a gente baixava num “china”, nos Arcos da Lapa, para dividir um prato feito. O garçom melhorava o esquema com um pote de farinha, um vidro de pimenta, uma garrafa d”água e um simpático “bom apetite”. Quando saía o pagamento, eu acertava as contas com o Rubens e íamos à Caixa “despendurar” o relógio. A gente se antecipava ao Zeca Pagodinho quando canta “deixa a vida me levar”.

Durante os últimos tempos do “Vestido…”, dirigi com alguns atores do elenco, em sistema cooperativo, a peça infantil “A Revolta dos Brinquedos”, de Pedro Veiga e Pernambuco de Oliveira. E fomos para Juiz de Fora, terra do Rubens, apresentar espetáculos vendidos com antecedência. Ficamos hospedados numa pensão da main street da “Manchester Mineira”, Rua Halfeld, com as refeições incluídas. Logo após o primeiro e fartíssimo jantar, o dono da pensão chegou para mim e disse:

– “Desculpe a curiosidade, mas o senhor come sempre assim?”

– “Não, só quando tem comida”.

Inté.

(Do livro Almanaque do Camaleão)

Autor

Mario de Almeida

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