O inferno bíblico, com as almas dentro de um panelão e o diabo espetando a gente com seu garfo, lamento dizer, mas é estória da carochinha, desculpe a franqueza. O Homem não tem mais medo do diabo, de ir para o inferno. O Homem tem medo de cair na malha fina da Receita, tem medo de guampa. Isso mesmo, guampa, chifre, cornos. Vale para os dois lados.
Como todo mundo sabe, o medo é subjetivo e muito pessoal. Eu por exemplo, tenho medo de mal entendido quando o assunto é casamento, esta sacrosanta e lendária instituição. O casamento oferece os mesmos destinos finais enunciados pela igreja católica, após a morte, ou seja, o paraíso, o purgatório ou o inferno. Sim, deixei por último aquele estágio que pode durar séculos, tanto no casamento, como depois da morte: o limbo. Não havendo mais hipótese de perpetuar o paraíso, entre ficar num casamento no limbo, ou no casamento purgatório, prefiro o inferno. Por que? De acordo com as estatísticas, as mulheres, nesses casos, chutam o pau da barraca e o inferno acaba, até nisso elas são melhores do que nós.
Para outros, o inferno é ter de conviver com gente chata, o meu caso. Quando o chato começa dizendo: “Veja bem…”, ou a chata não para de falar sobre o seu corpo, sobre a bolinha que descobriu durante o banho, ou sobre uma dieta para intestinos indolentes, ou ainda sobre a reforma do seu banheiro, eu fico imaginando mil e uma situações para sacanear o chato. Gosto muito da tortura chinesa. Imagino que há um botão no chão onde eu piso, o chão se abre, o chato cai num túnel em espiral descendente, e se vai pelas profundezas da terra até sair na China. Sem passaporte, ele é preso e condenado a voltar para o Brasil, num voo com dezenas de escalas, sentado na poltrona do meio. Ele está junto com dois passageiros que também foram mandados pelo alçapão. Sarney a sua direita (óbvio), e a sua esquerda está Xuxa. Nada a ver com opção ideológica, ela só quis viajar na janelinha. Da China até o Brasil, o chato vai ouvir uma Xuxa esfuziante falar compulsiva, frenética, agitada, sobre cada um dos seus programas infantilóides. Não só falar como cutucar forte em seu braço o tempo todo.
Sarney, por sua vez, vai fazer um vasto e sonífero discurso, mas a minha vítima não poderá dormir, pois a Xuxa não vai parar de falar, com sua voz enjoativa e estridente. Portanto, terá que ouvir uma longa, prolixa e detalhada exposição (pródiga em bravatas, eufemismos, contradições, citações, parábolas e metáforas), sobre a trajetória e as convicções políticas do senador. Xuxa e Sarney, um pacote infernal, os dois ao mesmo tempo, alternados, ou disputando a sua atenção. Nauseado e catatônico, o chato adquire um tom esverdeado e, enfim, descobre como é ser massacrado por gente chata. Estou vingado.
Não recordo exatamente como é o tecido filó, só sei que ele é muito lembrado para ilustrar o quanto algo pode ser elástico, na medida em que o filó “dá de si”, como o povo gosta de dizer. Um saco de filó é uma estratégia fleumática para suportar coisas muito desagradáveis. É verdade! Aniversário dos filhos dos outros? Acione o saco de filó, não falha. Garçom grosseiro? Horário político na TV? Comercial das Casas Bahia? Colega mulher que faz questão de mostrar os peitos e se ofende se você olha? Call Center de qualquer uma das telefonias móveis? Técnico do seu time, burro e retardado? Juiz ladrão? Parente safado? Amigo bêbado? Dirigir na III Perimetral? He, he, he, isso tudo o saco de filó tira de letra.
Porém, há coisas que o próprio saco de filó não aguenta e ameaça explodir. Não sei o que é para você, mas para mim, neste mundo, são apenas dois fatos que me enchem o saco de forma crítica. O primeiro é cachorro de vizinho latindo horas a fio, trancado no apartamento nos fins de semana. O segundo é impublicável, não vou dizer, não vou, desculpem. Mas, para compensá-los, minhas leitoras e meus leitores ( sem vocês eu não sou ninguém), vou ensinar como fazer um saco de filó encher muito, mas muito mais, sem estourar. É muito simples, basta canonizá-lo. Quando a barra começa a ficar muito pesada, diga três vezes, com toda a sinceridade no coração: “Ai, meu Santo Saco”. Pronto, é tiro e queda. Uma vez canonizado, o seu Santo Saco é capaz de criar quilômetros de paciência. Com isto, você evita um pico brutal de estresse, que o faria tirar toda a roupa e sair correndo pelas ruas gritando “O rei está nu, o rei está nu”. Com certeza, o incidente iria causar mal estar entre seus amigos e seus familiares. Mas com um bom saco de filó, e ainda canonizado, não tem pra ninguém. Não se admirem se acabarem criando o Dia de Todos os Sacos. Acho que seria uma justa homenagem a quem, como nós, aguenta firme. Quando eu era jovem, a Souza Cruz lançou uma campanha do cigarro Charm, cujo slogan era: “O importante é ter Charm”. Quem já tem uma certa idade, sabe que agora o importante é ser fort. E aguentar firm.

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