O único fator contra o meu casamento definitivo com a tal da escrita foi amansado, no sentido literal da palavra. Não será mais ele a levantar a voz quando o padre perguntar se alguém tem algo contra a presente união, que em breve será consumada. Não me obrigará mais a sessões e sessões de terapias heterodoxas e ortodoxas para o tratamento das conseqüências de seus recados desaforados na minha autoestima. A partir de agora, declaro-me em total harmonia e disposta a ser feliz para sempre com os Aurélios, os Auletes, os Houaiss, os Michaelis e até mesmo este desqualificado, sem nome: o corretor automático.
Tudo porque li, aqui mesmo em notícia publicada pelo Coletiva, que o dicionário Aurélio, em sua edição atualizada, traz nas suas páginas impressas e virtuais, as palavras que saltaram da linguagem da informática para as conversas e textos do cotidiano. Mas o Aurélio não se limitou a abrir sua inteligência somente para as expressões cunhadas pela tecnologia. O amansa burro do século XXI fala o que é Ricardão, nerd, balada, palavras ecologicamente corretas, como ecobag e algumas aportuguesadas.
Fã assumida do Orkut e do Twitter (mais recente) e escritora assídua de blogs, não ficarei mais sujeita aos sublinhados nos textos sempre que escolher uma palavra que os dicionários avisam não reconhecer. Nunca mais a humilhação de ler que poderei estar usando um neologismo quando quiser dizer que deletei algo, ou que tuitei e que meu próximo passo será blogar. Preciso confessar que no submundo das palavras portuguesas, o que será um neologismo sem compromisso perante a invasão dos verbos no gerúndio. É muito mais bonito, creio, você deletar ou tuitar, do que vou estar tuitando e vou estar blogando.
Em determinados textos, pelo seu caráter solene, burocrático ou formal, é melhor você não blogar, nem fechar uma pop-up e menos ainda transmitir algum dado urgente pelo blue tooth. Nestes casos, abuse dos atenciosamente, desde já e outrossim (existe palavra mais desanimadora do que esta?). Ainda que atuem como protagonistas da nova versão do Aurélio, atitude que espero seja seguida pelos seus concorrentes, os termos hich tech, do informatiquês e da rotina de todos nós, continuarão, por um tempo, restritos à linguagem mais informal.
Só em pensar que não serei mais constrangida a rever meus poemas para trocar as rimas não aceitas pelo corretor do Word, que poderei ir à farmácia comprar um bandeide para o calcanhar, que os e-books, fotologs e outros não se sentirão mais discriminados, sofrendo de bullying, aposto num novo patamar de relacionamento com o antigo e sempre útil amansa burro. Quiça seja infinito enquanto dure.

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