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O tempo de utopias

Por José Antônio Moraes de Oliveira

Utopias são verdades fora do tempo.” 

Eduardo Galeano.

***

Não alcançamos a plena consciência, mas há sinais de que chegamos à Era das Utopias. E não foi por falta de avisos – os profetas George Orwell e Umberto Eco já nos alertavam sobre tempos de negatividade e enganos. A escritora Pamela Paul, editora no The New York Times confirma que os sinais estão aqui e que devemos estar preparados.

1 – Dar adeus ao direito de preguiça.

 Antes da Internet, havia tempo para fazer pouco – ou  nada. Os domingos eram um tempo de preguiça, o livro lido pela metade, a taça de vinho sorvida com vagar. As conversas quietas com quem gostamos. Agora, estamos reféns entre uma cobrança e outra. Esperando pela próxima notificação, que vamos atender como o robô  que a gerou. E ao responder ao apelo dos algoritmos, talvez negligenciar do que importa de verdade – os seres vivos que são parte de nós.

2 – O adeus ao Mistério.

Existia magia na busca, nas descobertas. Nada substitui o prazer de ir atrás de respostas com diligência e fome de conhecimento. Agora, todas as respostas estão ao alcance do dedo. E sabendo disso, se desfaz o gozo da procura diligente, das respostas ainda distantes. O misterioso e o desconhecido tem os dias contados.

3 – Onde está o Silêncio? 

Havia uma certa quietude que pausava nossas horas. Uma calma que servia para pensar o dia que passou. Sem cobranças urgentes e listas do que fazer a seguir. O silêncio não é um espaço morto, é terreno fértil para a criatividade, para o auto-conhecimento e para o repouso. Hoje, os silêncios são interrompidos, cortado por avisos insistentes e alertas, pois é preciso estar sempre conectado. Ainda se pode preservar o Silêncio. É onde está a vida real.

 4 – Não mais Tédio ou Ócio.

 Houve tempo onde o Ócio era berço para a imaginação. Quando esperar por um ônibus ou sentar sòzinho em uma sala não era provação, mas pausa para alimentar sonhos e seguir em frente. Mas que não mais existe, trocado por telas que despejam imensas quantidades de inutilidades que nunca pedimos nem vamos precisar. Deveríamos nos aquietar e abraçar a calmaria, em vez  de fugir dela.

 5 – Se despeça da Privacidade.

 A vida privada sempre foi um bem precioso. Mas agora, não temos mais nossa sagrada reclusão. As identidades estão expostas no universo virtual. Os nossos dados pessoais viraram commodities que foram vendidos, revendidos e ainda vão ser usados sem limites. Qual será o custo de preservar a intimidade, sem nos expor por inteiro? O melhor da vida floresce no profundo de nós.

 6 – Sem tempo para refletir.

 Preservar velhos valores. Abrir novos caminhos. Não aqueles que a Internet nos oferece a cada minuto. Nossa capacidade de descobrir coisas boas por acaso, sem previsão está aos poucos desaparecendo. A reflexão será sempre surpreendente – ela e não os algoritmos devem sinalizar os caminhos.

 7 – Amigos aos milhares. Falsos.

A verdadeira Amizade nasce de experiências comuns, de  convivências e cumplicidade. Hoje, ela se oferece através de likes, emojis e pela ilusória proximidade. Quanto mais nos deixamos envolver, mais sòzinho vamos ficar. Amigos pedem trocas, lealdade e tempo para florescer.

 

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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