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O terrificante mito de Lilith, a Lua Negra

Lilith não suportou ficar sempre por baixo durante o coito. Sentiu-se humilhada sob o peso do corpo de Adão. A isto, preferiu enfrentar a …

Lilith não suportou ficar sempre por baixo durante o coito. Sentiu-se humilhada sob o peso do corpo de Adão. A isto, preferiu enfrentar a ira de Deus, preferiu dormir numa cama de urtigas e morar com os chacais, os escorpiões e as aranhas do deserto. Como castigo perdeu a luz própria.(*)

Na literatura universal não há nada mais obscuro e mais sinistro do que os relatos sobre o arcaico mito de Lilith, a mulher primordial que antecedeu Eva. As narrativas mais perturbadoras foram descobertas no Gênesis, no Zohar, na tradição sumério-acadiana, na tradição egípcia, greco-romana, na versão hebraica, além da Torah assírio-babilônica e hebraica, e dos textos apócrifos, escritos sob o domínio das paixões e dos terrores. Portanto, na época a nossa Lilith era uma celebridade internacional, no entanto, dona um poder de sedução e de um desejo tão transgressivo que, ao seu lado, Madonna seria uma noviça da Ordem das Irmãs Clarissas.

Descrita com uma mulher cheia de sangue (menstruava, Eva, não) e saliva, o que deixou Adão queixoso e amedrontado. A saliva, interpretada como um símbolo de enervante lascívia, era demais para um Adão insustentável. Os relatos deixam perceber que, além não querer ficar por baixo durante o sexo, Lilith tomava iniciativas na cama, fato que desestabilizava a ereção de Adão.

Se Deus criou Adão de um barro puro, Lilith segundo o imaginário cabalístico, foi criada de um pó negro, fezes e imundícies, símbolo perfeito para retratar os temores reais e imaginários dos rabis, sacerdotes e ayatolás, todos homens e os verdadeiros responsáveis pela demonização da figura feminina.

Sendo assim, Lilith, a Lua Negra, é a mais perfeita tradução deste machismo pernicioso, encravado no inconsciente ancestral como um dente de caveira. Logo ela irá surgir como o mais apavorante dos demônios: um demônio feminino.

Nas mensagens imagéticas da igreja, ela é a cobra que segura a maçã; contudo, na versão do gênesis, é a primeira mulher de Adão, tendo ele experimentado com ela o seu primeiro orgasmo,e, ao fazê-lo, perde a inocência e é prontamente  expulso do paraíso.Mesmo assim, quem aparece ao seu lado é uma impostora, é Eva, sua segunda mulher, que recém chegara e pegou o bonde andando.

Além de não querer transar por baixo, Lilith era andarilha, não ficava dentro de casa. No Cântico III há uma queixa pungente de Adão: “Procurei em meu leito, à noite, aquela que é o amor da minha alma. Procurei e não encontrei”.

No momento em que Adão nega a paridade sexual e tenta mantê-la em casa (cárcere privado), o que ela faz? O abandona. Se recolhe na aspereza desértica  da região do Mar Vermelho, cercada de criaturas trevosas, aranhas e escorpiões. Adão recorre ao Supremo, Deus intervém e manda uma legião de anjos trazer Lilith de volta para casa. Ela recusa-se e torna-se uma foragida (mulher, quando bota uma coisa na cabeça, sai de baixo). Mas o faz, não como criatura escarnecida e afrontosa; Lilith está ressentida, solitária e sente-se injustiçada pelo Pai. Não muito diferente das mulheres modernas, sensíveis, inteligentes, conscientes dos seus talentos, e que, por estas qualidades, são rejeitadas e escondem suas lágrimas na solidão dos seus apartamentos nas grandes cidades.

Lilith sabe que chegou ao ponto de não retorno, ela disse não para Deus. Por raiva ou desespero, entrega-se à mais completa devassidão e copula com cem demônios por noite, gerando cem demônios com cada um. Deus vinga-se matando todos os seus filhos. A demônia, então, passa a assediar a todos os homens que vivem só e que dormem sem camisa. Lembre-se aqui da advertência feita por Jeová Deus: Lilith age através da surpresa, do ardil, nos estábulos, nas latrinas, na cama dos solitários. À vítima era irressistível sucumbir aos desejos malvados da besta, à sua lascívia, ao seu furor elemental, ao sexo abrasivo e aos intermináveis orgasmos demolidores, até a mais completa exaustão.

Lilith, a face oculta da lua, condenada para sempre a viver nas trevas, é essencialmente uma mulher. Nada mais.O mito, interpretado por Jung, dá conta desta sexualidade feminina oculta nas sombras. Esta mulher exuberante, sensual, com os seus fluidos vitais e profundamente excitantes, até recentemente só foi tolerada nas casas de tolerância. Não era boa para casar, não era dócil, não era obediente. A decência e adequação social estão presentes na mulher lua cheia, leitosa e maternal. É com elas que os homens se casam e fazem filhos. Mulheres Lilith, mais complexas, livres tanto quanto os homens podem ser, viverão para sempre na imaginação melancólica do macho assustado. Num desejo que nunca se realiza, num priapismo noturno, poderoso e improdutivo, quando eles sonham com Lilith, a Lua Negra.

(*) O Livro de Lilith, de Bárbara Black Koltuv, Ph.D, e Lilith, a Lua Negra, de Roberto Sicuteri

Autor

Paulo Tiaraju

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