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Os Idos de Março

“Desastres raramente são motivo de dissuasão do comportamento de pessoas ou nações. Embora apareçam nos registros ou no noticiário, de forma contínua e ubí

“Desastres raramente são motivo de dissuasão do comportamento de pessoas ou nações. Embora apareçam nos registros ou no noticiário, de forma contínua e ubíqua, são percebidos como esporádicos, tanto no tempo como no espaço. Além disso, a persistência da normalidade é usualmente maior do que o efeito provocado pelos distúrbios – como vemos nos tempos atuais.

Depois de absorver as notícias do dia, se espera encontrar um mundo pontuado por greves, crimes, inundações, falta de energia, trens lotados, escolas fechadas, vândalos, drogados, pedófilos e assaltantes. De fato, ao voltar para casa sem encontrar um ou dois destes acontecimentos, a pessoa conclui que teve um dia feliz”.

(Barbara Tuchmann em “Um Espelho Distante”, 1978).

Embora com dois prêmios Pulitzer e fama mundial, a historiadora e analista política Barbara Tuchman não é considerada como profetiza da história contemporânea. No entanto, seus ensaios “Um Espelho Distante” (1978) e “A Marcha da Insensatez” (1984), nos alertam sobre o que pode acontecer ao mundo atual se continuarmos a repetir os erros do passado.

Um aspecto que fascina em seus livros é a impressionante sequência de recorrências históricas. Ao lado da repetição de monumentais erros políticos e militares, ao longo dos séculos, constatamos a intrigante coincidência dos eventos ocorridos – ou gestados – em março, não por acaso, o mês consagrado a Marte, o deus da guerra.

Os historiadores lembram que março inaugurou sua trágica notoriedade a partir do ano 44 AC, quando Julio César foi apunhalado até a morte nas escadarias do Senado. Era o dia 15 e a data foi nominada como “os idos de março” e assim permaneceu na mitologia histórica como uma espécie de maldição inextinguível.

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No entanto, desde tempos remotos, a história coleciona eventos extraordinários que teriam ocorrido – ou sido provocados – nos idos de março. Em “A Marcha da Insensatez”, Barbara Tuchmann sugere que o episódio do Cavalo de Tróia, uma das lendas da antiguidade mais ricas em significados, teria se passado no período equivalente ao março dos romanos. A partir de então, o mítico cavalo moldou um perene arquétipo de engenhosidade militar e de astúcia política. Não foi por acaso que Virgílio, na fala de Laocoonte, advertia os troianos sobre os gregos:

“– Não acreditem em presentes dos inimigos.”

A advertência não foi ouvida nem naquele momento, nem pelos séculos que se seguiram. Inumeráveis príncipes, governantes e nações inteiras continuaram sendo ludibriados pelas mais inventivas variações do Presente Grego. Frequentemente, em plenos idos de março.

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Foi em março de 1147, em Santarém, que D. Afonso Henriques derrotou os mouros, usando táticas militares quase ingênuas, porem suficientes para vencer os confiantes invasores, que se sentiam em casa, depois de 300 anos de ocupação.

Ainda na Ibéria, em 1493 – e novamente em março – Cristóvão Colombo regressa da primeira viagem ao Novo Mundo e exibe arcas repletas de ouro e prata à Corte de Espanha. O tesouro aguça a cobiça de Fernando e Isabel, que o usam para financiar novas expedições, em busca de mais ouro e prata. O resultado: a extinção do império asteca.

Em março de 1776, o novo congresso norte-americano declara a supressão da autoridade da Coroa Britânica, sinalizando o ocaso do Império e abrindo caminho para a independência.

Cento e quarenta e um anos depois, abdica o Czar Nicolau II, da Rússia, encerrando três séculos de dinastia Romanoff e dando lugar ao regime bolchevique. Sua execução, em julho, um ano depois, estava marcada para março.

Um pouco mais tarde, os idos de março lançam mais uma vez sua sombra sobre a Europa. Apesar de todas as advertências e incontáveis sinais de alarme, França e Inglaterra desdenham o aparelhamento militar da Alemanha. No dia 15 de março de 1939, tropas de assalto ocupam o que restava da Boêmia e Morávia. A Checoslováquia cessa de existir e abrem-se as portas para o deus Marte – seis meses depois, tem início a II Guerra Mundial.

No Brasil, o mês de março nunca foi tão sangrento nem tão devastador, além das repetitivas “águas de março”, em forma de dilúvios urbanos e tragédias humanas.

No entanto, em 1990, os brasileiros foram surpreendidos pelo Plano Collor, que congelou contas correntes e confiscou a poupança da população. A data? 16 de março.

Uma frase de Barbara Tuchmann resume suas teses sobre a persistência dos acontecimentos que sempre afetaram a vida das pessoas e nações:

“ – Aprender com a experiência passada é uma faculdade que raramente praticamos”.

Uma lição nunca aprendida, nem no passado ou no presente, apesar da advertência do vidente em “Julio César”, de William Shakespeare:

“- Tendes cuidado com os Idos de Março”.

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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