Às vezes pego um livro de Saramago e levo numa viagem curta. Todo mundo de vez em quando devia tomar uns banhos nas águas de Saramago. Ele sempre desconcerta porque o seu olhar infantil, depois de elaborado, se torna uma navalhada. Invoquei Saramago para me autorizar um pouco do seu jeito agridoce de dizer as coisas.
Eu estava num restaurante e, com o rabo-do-olho, vi numa espécie de estande de metal a capa de Veja cujo título dizia: “O poder do ser”. Havia algumas pessoas por ali cobrindo parcialmente a minha visão e logo alguém ficou na frente da revista. O poder de ser, que sacada. Imaginei os desdobramentos da matéria e lembrei das mais diversas aptidões e talentos quando são encaminhados para a arte, a música, a palavra escrita e falada, além das vocações extraordinárias para a dramaturgia, para os esportes, habilidades raras como operar e extinguir um coágulo no cérebro, como esculpir um rosto jovem no lugar da máscara cansada e decadente. Ou o dom de iludir, como os mágicos, e tudo o que, uma vez aprimorado por uma pessoa, a torna alguém que se desprende da matéria comum dos mortais, não importa em que proporções. É o poder de ser. Muitas destas pessoas, mesmo com poucos recursos financeiros, são; e ser é inversamente proporcional aos que, mesmo tendo muito, não são nada.
Mesmo não tendo nada, aquelas pessoas são absurdamente felizes. São cantores de botecos, são pais-de-santos, são camelôs, são ritmistas, são atores ou goleadores do time de várzea, lírios pirados. A única coisa que realmente elas têm é um estranho brilho no olhar. Na verdade, pressinto, essas pessoas experimentam um enorme ganho (adicional) de autoestima. Existencialmente, são mais felizes do que as pessoas que somente têm. Este é o poder do ser versus a propriedade e a volúpia do mando. Quem é é protagonista, faz o espetáculo, colore o mundo, tempera a vida e povoa a imaginação inóspita do telespectador à deriva, o psit, o da poltrona. Se me fosse possível optar entre ser e ter, a minha resposta seria rápida e objetiva: gostaria de ser e ter, o que é que eu posso fazer? O mundo me deixou assim.
Mas, de volta à exegese, como diz o outro, é só observar a menina-dos-olhos dessa gente que é. Não é uma menina apática, ou uma menina ordinária, oca, sem graça. É uma menina umedecida em fluidos emocionais, sempre à beira do êxtase, de uma epifania que pede passagem.Vá numa roda de samba nos fundões dos subúrbios e lá estão eles, sendo felizes e geniais como só eles sabem ser.
O inacreditável de tudo isso é que a Veja não fez essa matéria, ora Veja. O que aconteceu foi um incidente visual. Como havia um burburinho de pessoas passando em frente à revista na banquinha de metal, eu li “O Poder do ser”. Depois, vi que o título era: “O poder do laser”. Eu não li o “la”, de laser. Por que diacho eu li o poder do ser? Óbvio, porque estava caindo de maduro, porque só uma minoria quer ser. Porque a ambição predominante é ter, ter mais, ter muito e ter rápido. Ou então o que aconteceu comigo foi um ato faio, como diz o analista da roça. Estava distraído e achei que o assunto fazia distinção em ser e ter. Avoé, a Veja sabe que os novos ricos estão chegando. Ela só não lembra mais que me conquistou quando eu era jovem e ela também. Naquele tempo, a revista queria falar com quem queria ser alguma coisa na vida.

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