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Os remadores que jogavam bola

Às 7 horas, quando tocava o sino da igreja dos Navegantes, os alemães colocavam os outriggers na água e disparavam como flechas até a …

Às 7 horas, quando tocava o sino da igreja dos Navegantes, os alemães colocavam os outriggers na água e disparavam como flechas até a ponta do Gasômetro. Eram apenas doze, remanescentes do grupo de remo “Ruder Verein”, mas eram chamados de “a turma do Germânia”. Meu pai costumava dizer que, o remo para eles, não passava de pretexto para se divertirem como jovens, que há muito haviam deixado de ser.

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No entanto, os alemães não estavam sozinhos nas aventuras dos domingos, no Guaiba. Havia um outro animado grupo, que também mostrava força nos remos e velocidade na água – os italianos do “Canottieri Duca degli Abruzzi”.

Os alemães não simpatizavam com os italianos, que os chamavam de “Il tedeschi”. Obrigados a dividir o rio com eles, não engoliam as provocações, por acharem indignas de desportistas. Acontecia que os Abruzzi largavam mais cedo, de um ponto rio acima. Ao passar pelos Navegantes, entoavam alegres e irreverentes canzonettas, sem gestos ofensivos, nem narizes torcidos. Apenas remavam e cantavam, regidos por um patrão de grandes bigodes, que usava um engraçado chapéu de palha, adornado com uma fita tricolore.

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Na verdade, desde algum tempo, os remadores do Germania se sentiam cansados das longas corridas até o Gasômetro e tentavam abreviar o tempo na àgua, ansiando pela hora do chopp e schnapps no Lilliput da Otávio Rocha.

Outros, se queixavam do frio nas manhãs de inverno, alegando que regatas eram para gente jovem. Assim, eles prestaram muita atenção quando um deles – dizem que foi o Guilherme Trein – de regresso da Alemanha, apareceu com uma novidade: um tal de “fussball”.

Todos queriam saber mais, pois se comentava que o novo jogo de bola virara febre na vizinha Argentina. E logo concordaram que poderia ser um substituto para o remo – com a vantagem de não precisar acordar cedo nos domingos de inverno. E, quando o Leo Rosenfeld disse que sabia de um lugar nos Moinhos de Vento onde poderiam jogar, a coisa começou a ficar séria. Começaram encomendando os uniformes, enquanto o Oscar Matte, que tinha uma firma de importação, mandava vir de Buenos Aires um jogo de chuteiras e uma bola de couro, costurada a mão. E dentro em pouco, os matches no Prado tomaram o lugar das regatas no Guaiba. Lembro o pai contar que, já que ninguém sabia das regras e como não havia um referee para apitar os fouls, muitas vezes era preciso parar o jogo e consultar o livrinho que o Brenner guardava no bolso de seus calções de goalkeeper.

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Mesmo com os percalços, os tedeschi adotaram de vez o futebol como seu esporte de fim-de-semana e se divertiam tanto ou mais no barro da várzea do que nas águas do Guaiba. Eu sentia isso, quando o pai chegava sorridente para o almoço dos domingos. Tinha as chuteiras cobertas de barro, o rosto afogueado e os olhos brilhando. Com certeza, ele e os footballers haviam feito uma visita ao bar da Otávio Rocha.

Meu pai guardava poucos troféus de seus dias na várzea do Prado. Apenas amareladas fotos, onde ele apontava os rostos risonhos, lembrando o nome dos velhos companheiros. Naquele tempo, era preciso tirar dinheiro do próprio bolso para jogar bola, mas eles pareciam crianças felizes, posando com as novas jerseys de mangas compridas, que tinham um escudo do lado esquerdo do peito.

Ali se lia Fussball Club Porto Alegre. Eu ainda não sabia, mas o futebol havia chegado a Porto Alegre.

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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