Colunas

Ouvindo ruas

Por José Antônio Moraes de Oliveira

“Não são ruas, não são casas. 

O que revejo é um tempo, 

o que escuto é a fala desse tempo (…).”

Mia Couto.

***

Certa vez perguntaram a Antonio Machado de onde ele buscava inspiração para sua poesia. O poeta respondeu que caminhava pelas calles antigas de Sevillha e Granada, ouvindo estórias dos que nelas viveram, amaram e morreram. Não por acidente, ele é o poeta do “Caminhante”, que assim resume nossa jornada:

“Ao caminhar se faz o caminho e ao olhar para trás,

Você vê o caminho que nunca voltará a pisar.

Caminhante não tem caminho, faz o caminho ao andar.”

***

Antonio Machado não é o único poeta apaixonado pelas ruas de uma cidade. Os portugueses lhe fazem companhia, com versos e poemas inteiros dedicados a Lisboa. Em 1925, Fernando Pessoa escreveu um guia turístico de Lisboa, que é uma carta de amor, um passeio pelos tesouros e encantos das antigas ruas da Alfama e Mouraria. Seguido de perto por António Nobre, em Despedidas:

“Ó Lisboa das ruas misteriosas,

Da Triste Feia, de João de Deus,

Beco da Índia, Rua das Fermosas,

Beco do Fala-Só (os versos meus…).

E outra rua que eu sei de Duas Rosas,

Beco do Imaginário, Rua dos Judeus,

Travessa (julgo eu) das Isabéis,

E outras mais que eu ignoro e vós sabeis”.

***

É provável que os pioneiros açorianos que fundaram Porto Alegre tenham sido inspirados pelos poetas quando batizaram ruas, becos e praças. Alguns dos nomes originais falam de uma cidade tranquila e prazerosa, onde nossos avós viviam felizes. O historiador e poeta Aquiles Porto Alegre escreveu a história e geografia sentimental da mui leal, onde são lembradas ruas que desapareceram ou tiveram nomes substituídos por homenagens  a políticos a caminho do esquecimento: 

Rua dos Sete Pecados Mortais

Rua do Arco da Velha

Rua dos Nabos a Doze

Rua da Guarapa

Beco da Casa da Ópera

Travessa das Perdizes

Praça da Harmonia

Rua da Graça

Rua do Jogo da Bola.

***

Escrever sobre Porto Alegre nos conduz inevitavelmente ao poeta Mario Quintana, que como os poetas lusitanos, se inebria ao falar sobre sua cidade:

“Sinto uma dor infinita

Das ruas de Porto Alegre

Onde jamais passarei…

Ha tanta esquina esquisita,

Tanta nuança de paredes,

Ha tanta moca bonita

Nas ruas que não andei

(E há uma rua encantada

Que nem em sonhos sonhei…).

***

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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