Bale au Moulin de La Galette – Renoir
Em minha primeira ida a Paris, cheguei à noite, dormi, manhã seguinte, com destino ao Museu Jeux de Paume, fui apresentado ao metrô. Desci na Rue Rivoli e, ao subir as escadas, dei de cara com a Torre Eiffel, não muito longe e minha primeira imagem significativa daquela cidade.
Ainda emocionado – estava em Paris! –, atravesso a rua e sou impactado com uma emoção maior. No baixo muro de pedra que separa a rua com o Jardim das Tulherias, há placas homenageando os heróis – com nome, atividade e idade – mortos naquele local nos entraves com os nazistas pela libertação de Paris, em 25 de agosto de 1944. Entre eles, lembro-me bem, um estudante com 17 anos.
Percebi que não havia mais clima para me esconder num museu e, lá mesmo, na Rue Rivoli, acabei decidindo entrar num ônibus onde americanos iam fazer um city tour com uma guia francesa falando inglês.
Ao passar pela Praça da Bastilha, um americano curioso perguntou onde, afinal, estava a Bastilha. O susto da guia foi tão grande que esqueceu o inglês e respondeu em francês mesmo: c’est tombé, monsieur!
Se você quiser ver parte de Paris a 130 metros de altura, vá a Montmartre, visite a Sacré-Coeur, a Place de Tertre, ao lado, e tome um copo de vinho em “A La Mère Catherine”, fundado em 1793 e onde, em 1814, nasceu a palavra bistrot (essa já é uma outra história). Caminhe, se conseguir, por entre os artistas que fazem arte na Place, visite o Museu de Montmartre e prefira voltar a pé, pela Rue Lepic. Mesmo que haja usado transporte para subir, desça andando e passe defronte ao Moulin de la Galette, cujos bailes foram imortalizados por Renoir e – quase já lá embaixo – no número 54, é onde morava Theo van Gogh, o irmão do pintor. Quando ia a Paris, Vicent sempre se hospedava com Theo que, apesar de mais novo, custeava o irmão para que ele só se dedicasse à pintura.
Quem não conhece o prato mais popular da França, o cassoulet, deve conhecê-lo. Tratado aqui como a feijoada brasileira, possui diversas versões, mas é feito basicamente com feijão branco, carne de ganso e de pato, salsicha, linguiça e carne de porco. Conforme a temporada do ano, pode, até, ganhar carne de perdiz. Ao terminar a lauta refeição, como você não está em casa de esquimó, o arroto de satisfação é absolutamente dispensável.
Caso você vá viajar de Londres para Paris, ou vice-versa, vá pelo Eurostar, trem que trafega sob o Canal da Mancha e que, além das vantagens de embarque e desembarque nos centros das duas cidades, fugir dos aeroportos e da perda de tempo, se você marcar em horário de refeição, vale o preço da 1ª classe que inclui o almoço, servido com champagne, inclusive, e vale os euros a mais.
Se você quiser conhecer Paris a uns 20 metros abaixo da superfície, desça às catacumbas (Les Carrières de Paris), um ossuário organizado em alguns setores do complexo sistema de cavernas e túneis já existentes no subsolo, resultado de séculos de exploração de pedreiras, desde o remoto período da ocupação da cidade pelos romanos. Esse sistema de túneis é oficialmente designado como Subterâneos de Paris e, embora o ossuário aberto à visitação pública ocupe apenas uma muito pequena parte do sistema, todo ele é comumente conhecido como “As Catacumbas de Paris” e chega – nas suas vias paralelas e cruzamentos – a 400 km de extensão, praticamente a mesma distância do Rio a São Paulo.Os cemitérios de Paris, superlotados, tornaram-se um problema desafiador e, em novembro de 1785, paralela à construção de novos cemitérios, decidiu-se juntar as ossadas existentes e, em 1786, aquela herança fúnebre começou a ser transladada para o trecho escolhido das catacumbas e simplesmente lá colocada, sem maiores preocupações de organização. A ideia de usar os túneis abandonados das pedreiras parisienses é creditada ao chefe de Polícia, General Alexandre Lenoir, e executada pelo seu sucessor, Sr. Thiroux de Crosne.
Inicialmente, as ossadas foram jogadas de qualquer modo nas catacumbas, mas, a partir de 1810, elas foram dispostas nos corredores com certos critérios artísticos. Ossos longos, como fêmur, tíbia, foram colocados à frente, formando verdadeiras paredes de ossos, adornadas (sic) com os crânios em desenhos geométricos. Por trás dessas paredes de ossos, foram depositados os ossos menores e mais irregulares. A mim, o que mais me encantou (esse verbo é adequado?) nessa visita foram as frases espalhadas pelas galerias que revelam toda a grandeza, refinamento, sutileza e o nível do pensamento francês.
Fim de viagem, faça como eu sempre fiz, pense bem alto: Paris, toujours Paris, au revoir!
Inté.
Brinde – Coloque no google Chico Buarque em Canção do Pedroca ou http://www.youtube.com/watch?v=xi1PysJJI9s.
Vitrine (Comentários dos leitores sobre crônica anterior)
Mario, não quero deixar de dizer que a ideia da “ajuda”, na coluna, vingou lindamente. Pode até continuar, o tema inspirou as pessoas. És um demoníaco. Vera Verissimo, Porto Alegre
Tio querido, eu li a última coluna, estava esperando um momento que eu estivesse menos cansado pra poder comentar. Eu fui a uma lanchonete especialista em cachorro-quente, entrei na internet e vi que sua coluna já havia saído. Estava com a Bia (minha namorada) e pedi pra ela ler. Ela começou a ler sem entender muito, mas foi lendo. Quando ela entendeu que eram vários continhos e aquele falava sobre ela, foi felicidade pura. Foi uma surpresa pra mim (pois achava que eu só ia aparecer na próxima leva) e para ela que esperava um lanche sem nada de mais. Desculpa demorar a responder. Ulrich Aguiar, Fortaleza
Jovem Mario… alegria em saber o quanto motiva sentimento…
Moisés Andrade, Olinda/Recife
Viva Mário! Que os problemas com a Internet não prejudiquem a regularidade de publicação de suas colunas. Pavlovianamente já estava babando pela ausência do texto do Mario. Salve, salve, Léo Christiano, Rio


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