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Pátria minha

Vontade de beijar os olhos de minha pátriaDe niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos…Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feiasDe …

Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos…
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias pátria minha
Tão pobrinha!

Vinicius de Moraes

Afonso Celso de Assis Figueiredo Júnior nasceu em Ouro Preto, em 31 de março de 1860, e faleceu no Rio de Janeiro em julho de 1938. Formado pela Faculdade de Direito de São Paulo, onde ingressou aos 15 anos, por permissão especial do Parlamento, aos 20 anos era advogado e aos 21, doutor em Ciências Jurídicas. Um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, foi membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, quatro vezes deputado federal por Minas, no período imperial e, na República, dedicou-se ao magistério, ao jornalismo, às letras e à advocacia.

Recebeu do Papa o título nobiliárquico romano que o tornou conhecido como o Conde Afonso Celso.

De sua vasta produção literária, uma obra o tornou o autor do primeiro grande best-seller brasileiro: Por que me ufano do meu país. Lançado em 1900, o livro vendeu cerca de 300 mil exemplares, número que representaria hoje, em relação à atual população brasileira, mais que 3 milhões de exemplares.

O que me remeteu ao Conde Afonso Celso é que está sendo lançado agora o volume II do livro O Brasil tem jeito?, no qual os temas educação, saúde, justiça e segurança são tratados, respectivamente, por Maria Helena Guimarães de Castro, Adib D. Jatene, Dalmo Dallari e Luiz Eduardo Soares/Miriam Guindani. Os jornalistas Villas-Bôas Corrêa e Roberto Pompeu de Toledo tratam, respectivamente, “de jeitos e jeitinhos” e do ABC da viabilidade.

Uma nota da imprensa adianta que todos os depoimentos consideram que o Brasil tem jeito. Como não li o livro, não sei se os argumentos são tão sólidos como foram os do Conde há 107 anos.

Afonso Celso situa, com propriedade, ainda que pecando pelo otimismo e pela exagerada adjetivação, todas as condições que faziam do país uma promessa de inserção no mundo desenvolvido e civilizado.

Considerando-se o fato que o Brasil tinha apenas 370 anos de colonização, mais sua vastidão territorial, as riquezas e belezas naturais e um clima amável, o ufanismo era justificável, apesar do Conde não omitir as ciladas e dificuldades para se chegar lá.

Stefan Zweig (1881-1942), escritor judeu nascido na Áustria, fugitivo do nazismo, foi um operário das letras: biógrafo, contista, dramaturgo, ensaísta, historiador, libretista, novelista e poeta.

Entre os romances, Carta de uma desconhecida, A novela de xadrez, Amok, Vinte quatro horas na vida de uma mulher foram publicados em diversos idiomas. Biógrafo respeitado, legou valiosos trabalhos sobre Fernão de Magalhães, Fouché, Maria Antonieta e Maria Stuart.

Uma coincidência remete Zweig ao Conde Afonso Celso: ambos residiram em Petrópolis. E o austríaco, como o brasileiro, também colocou em livro uma visão otimista em relação a este país: “Brasil, país do futuro”.

Enquanto o livro de Afonso Celso foi saudado como um serviço prestado à pátria, o livro de Zweig provocou a suspeita que seria o preço pago ao ditador Vargas pelo visto de sua permanência em território brasileiro. A suspeita permaneceu suspeita, mas a obra não esconde uma verdadeira, uma autêntica simpatia pelo país que o acolheu. Crente no Brasil e descrente da humanidade, Zweig e a esposa, Lotte, suicidaram-se em Petrópolis.

Li boa parte da obra literária e biográfica de Zweig, escritor reverenciado no mundo e no Brasil até os idos de 1960. Admiro o escritor, e a crítica mais válida sobre esse livro que foca o “país do futuro” de forma abrangente é que os erros e acertos têm uma mesma origem, a ótica européia, nem sempre com a lente mais correta para entender a realidade brasileira.

Não li esses dois volumes recentes que apontam soluções para a calamidade brasileira, mas espero que sejam, apenas, caminhos possíveis e não previsões otimistas, enganosas semeaduras de esperança.

Muitas gerações cresceram embaladas no sonho apoteótico de Bilac que, se visto como uma praga, pegou:

“Criança! Não verás nenhum país como este!…”

Acho mais justo que gerações atuais e futuras sejam preparadas para enfrentar e tentar mudar a realidade.

Inté.

Autor

Mario de Almeida

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