Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos…
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias pátria minha
Tão pobrinha!Vinicius de Moraes
Afonso Celso de Assis Figueiredo Júnior nasceu
Recebeu do Papa o título nobiliárquico romano que o tornou conhecido como o Conde Afonso Celso.
De sua vasta produção literária, uma obra o tornou o autor do primeiro grande best-seller brasileiro: Por que me ufano do meu país. Lançado em 1900, o livro vendeu cerca de 300 mil exemplares, número que representaria hoje, em relação à atual população brasileira, mais que 3 milhões de exemplares.
O que me remeteu ao Conde Afonso Celso é que está sendo lançado agora o volume II do livro O Brasil tem jeito?, no qual os temas educação, saúde, justiça e segurança são tratados, respectivamente, por Maria Helena Guimarães de Castro, Adib D. Jatene, Dalmo Dallari e Luiz Eduardo Soares/Miriam Guindani. Os jornalistas Villas-Bôas Corrêa e Roberto Pompeu de Toledo tratam, respectivamente, “de jeitos e jeitinhos” e do ABC da viabilidade.
Uma nota da imprensa adianta que todos os depoimentos consideram que o Brasil tem jeito. Como não li o livro, não sei se os argumentos são tão sólidos como foram os do Conde há 107 anos.
Afonso Celso situa, com propriedade, ainda que pecando pelo otimismo e pela exagerada adjetivação, todas as condições que faziam do país uma promessa de inserção no mundo desenvolvido e civilizado.
Considerando-se o fato que o Brasil tinha apenas 370 anos de colonização, mais sua vastidão territorial, as riquezas e belezas naturais e um clima amável, o ufanismo era justificável, apesar do Conde não omitir as ciladas e dificuldades para se chegar lá.
Stefan Zweig (1881-1942), escritor judeu nascido na Áustria, fugitivo do nazismo, foi um operário das letras: biógrafo, contista, dramaturgo, ensaísta, historiador, libretista, novelista e poeta.
Entre os romances, Carta de uma desconhecida, A novela de xadrez, Amok, Vinte quatro horas na vida de uma mulher foram publicados em diversos idiomas. Biógrafo respeitado, legou valiosos trabalhos sobre Fernão de Magalhães, Fouché, Maria Antonieta e Maria Stuart.
Uma coincidência remete Zweig ao Conde Afonso Celso: ambos residiram
Enquanto o livro de Afonso Celso foi saudado como um serviço prestado à pátria, o livro de Zweig provocou a suspeita que seria o preço pago ao ditador Vargas pelo visto de sua permanência em território brasileiro. A suspeita permaneceu suspeita, mas a obra não esconde uma verdadeira, uma autêntica simpatia pelo país que o acolheu. Crente no Brasil e descrente da humanidade, Zweig e a esposa, Lotte, suicidaram-se em Petrópolis.
Li boa parte da obra literária e biográfica de Zweig, escritor reverenciado no mundo e no Brasil até os idos de 1960. Admiro o escritor, e a crítica mais válida sobre esse livro que foca o “país do futuro” de forma abrangente é que os erros e acertos têm uma mesma origem, a ótica européia, nem sempre com a lente mais correta para entender a realidade brasileira.
Não li esses dois volumes recentes que apontam soluções para a calamidade brasileira, mas espero que sejam, apenas, caminhos possíveis e não previsões otimistas, enganosas semeaduras de esperança.
Muitas gerações cresceram embaladas no sonho apoteótico de Bilac que, se visto como uma praga, pegou:
“Criança! Não verás nenhum país como este!…”
Acho mais justo que gerações atuais e futuras sejam preparadas para enfrentar e tentar mudar a realidade.
Inté.

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