Certos assuntos, potencialmente, são capazes de mobilizar nossos sentimentos mais profundos. No entanto, para quem escreve, uma dose a mais de emoção traz com ela o risco do equívoco, da distorção momentânea, capaz de nublar o discernimento.
Há um longo tempo acompanho pela imprensa, com especial interesse, toda a matéria que reporte ou denuncie atos de pedofilia. Freud fica fora desta questão, pois minhas razões são de clareza solar: porque pedofilia é crime hediondo, entretanto, com o agravante de ser de lesa humanidade. Ele, o abominável pedófilo, assalta de emboscada e destrói quem não possui a menor capacidade de se defender: a criança, eis a questão.
Há quem possa pensar que ou vivi, ou testemunhei algum episodio desta natureza, pelo fato de me importar com o assunto, mais do que a média das pessoas. Não é preciso mergulhar no fundo de um poço sórdido e mau-cheiroso como este para saber o que tem lá. Basta um mínimo de informação e um pouco de imaginação e outro tanto de decência.
Eventualmente, quando escrevo sobre alguma coisa que me comove (e me mobiliza), além das proporções previsíveis, costumo achar que a palavra escrita se torna falível, enquanto escrevo. Como se ela, a palavra, apenas emprestasse a forma, mas sem o poder de tocar no nervo exposto do problema. Como se o objeto em questão, fosse capaz de escapar e se refugiar em algum lugar remoto, onde a palavra não o alcança. Quando me encontro neste torvelinho, o pensamento abre muitas janelas, mas nem uma delas me parece convincente, e, talvez por ansiedade, nessas horas fico “criativo”. Foi o que se deu comigo na semana passada.
Na crônica da semana passada, publicada aqui no Coletiva.net, sob o título “Pedofilia católica, se for ler tape o nariz II”, me acidentei. Este texto, embora tenha sido pontual em seu objetivo, o de desvelar as barbaridades declaradas pelo arcebispo de Porto Alegre, agora passa a ser um exemplo público do modo como se constrói um grande equívoco.
Escrevia sobre a surrealista matéria publicada em ZH em que o arcebispo de Porto Alegre desagrava a prática da pedofilia por parte dos padres, quando me vi na situação que descrevi há pouco, em que a palavra se torna frágil.
Então, cometi dois erros grosseiros: o primeiro foi abrir um assunto de tamanho sofrimento para as vítimas, com uma piada incabível e tosca. Além de impertinente (e de gosto duvidoso), a velha piada reabre antigas feridas em relação às irreversíveis conquistas das mulheres. Não admira se, naquele momento, não teria emergido de alguma caverna do inconsciente o velho e ancestral machismo. A descrição que faço do corpo feminino (mesmo sendo piada) foi grosseira e profundamente desrespeitosa. A intenção subjacente da piada é a de ridicularizar a figura feminina, e, na utilização, como se a deformidade física da mulher, descrita na piada, estivesse na mesma vala imoral do depoimento do arcebispo.
Me dei conta disso porque uma querida amiga me fez prestar atenção no fato. Ela sabe que não foi necessário se esforçar muito para me fazer ver. Imediatamente reli aquela matéria – e seus “agregados criativos” – e me abismei com o equívoco monumental, com o tamanho da bobagem da história do coronel, etc. E com a inacreditável carga de um rancoroso preconceito machista. Não retiro uma palavra sobre o que penso do arcebispo, mas gostaria de iluminar este apagão de critérios éticos que subitamente me obscureceu. E o que mais que me cabe fazer agora, além de reconhecer o erro? Pedir perdão. Peço o perdão (sem jogo de cena, por favor) em respeito à inteligência dos leitores e à qualidade editorial do Coletiva.net. Peço perdão também por mim, eu, que amo tanto as palavras, mas que, por elas, me deixei seduzir.

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