Pelo lockdown já

Por Marcia Martins

Nesta quarta-feira, 17 de março, eu deveria comemorar - sem nenhum elemento esfuziante, sem festa, sem velas, balões coloridos ou bolo de aniversário - o meu primeiro aniversário de vida nova. Sim, porque ontem eu assinalei 365 dias de isolamento, de confinamento total, sem esta palhaçada de distanciamento controlado e de regiões do Estado pintadas de cores diferentes. Quando, no dia 16 de março de 2020, o meu médico determinou, em função de ter uma doença autoimune e 60 anos (naquela data), que eu cumprisse à risca dias e noites trancadas em casa, jamais pensei que a pandemia da Covid-19 ganharia este cenário tão preocupante e tão desolador.

Foram dias de tristeza profunda pela impossibilidade de confraternizar com meu círculo de amizade e de não ver com a frequência habitual o sorriso animador da minha filha, fazer cafuné em seus cabelos, enlaçar seus braços e visitar meu irmão em Butiá. Foram noites de insônia preocupada com pessoas conhecidas que estavam ficando doentes, pelo número de vítimas pelo Coronavírus e pela falta de uma política transparente e coerente de vacinação. Foram momentos de resiliência, de persistência e de nem sempre querer acreditar em tanta desgraça no Brasil e no mundo.

Na realidade, não seria então um ano de vida nova que eu tenho a ressaltar. E sim 365 dias de um ser sobrevivente. No exato dia em que o Rio Grande do Sul atingiu a marca de 15.606 mortes, eu tenho a obrigação de celebrar que estou viva. Eu sobrevivi. Na terça-feira em que o Estado registra 502 óbitos nas últimas 12 horas - o maior número diário de toda a pandemia no solo gaúcho - eu tenho o compromisso moral e ético de agradecer a minha sobrevivência. 

E com o respaldo de quem cumpriu o isolamento, não fez aglomeração e não saiu do confinamento, eu peço encarecidamente ao governador Eduardo Leite que não ceda às pressões econômicas e nem se mostre um ser insensível. Sr. Governador: não só mantenha a bandeira preta e o fim da cogestão, como por favor, decrete o lockdown. Eu imploro pelas famílias que choram seus mortos e também para estancar esta sangria: decrete o lockdown. Sr. Governador: "na terça-feira, 16, foram 502 vidas, feche tudo por 10 ou 15 dias". Ou entre para a história como o grande responsável no RGS por esta grande tragédia de exterminação de vidas.

Se apenas a minha súplica acima não lhe sensibilizar, vamos reforçar alguns dados. Quase três em cada quatro pacientes internados em UTI no RGS tinha diagnóstico para a doença. E no final da tarde de terça-feira, 107,8% dos leitos de UTI estavam ocupados. A Secretaria Estadual da Saúde informa que são 3.433 pacientes precisando tratamento intensivo para 3.186 vagas nos hospitais públicos e privados. Já estamos em colapso Sr. Eduardo Leite. Não dá mais para fechar os olhos para esta calamidade. 

Autor
Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Famecos/PUCRS, militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editoriais de economia e geral, e em assessorias de comunicação social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em antologias, diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do RS (Sindjors), e presidenta do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA), gestão 2019/2021.

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