Assim foi quando era menino e amava a Maria, tão linda, tão linda que não me dava nem bom dia. Eu desenhava corações na calçada, e, ao vê-la passar, pisando nas linhas, sentia que era em meu coração que ela pisava.
Meu Deus, eu via Maria de fora para dentro, grudada na retina, até mesmo quando via Lia, Margô e Elvira, era Maria quem eu via. E desenhava mais corações, e novas declarações. Porém, Maria, triste, pálida e abatida, gostava do Carlinhos, um tipo com a picardia que eu não tinha. Além da cara cheia de espinhas, tinha fama de comunista, o que lhe rendia notícias. Por sua vez, ele amava de morte a Lia, a ciclotímica, bem mais velha que ele, desquitada e deprimida. Diziam, uma mulher enlouquecida por causa da filha. A menina fugiu, sem deixar pista. Virou uma lolita e foi atrás de um circo, para se casar com o trapezista. Rejeitada pelo artista, acabou casando com um anão chamado Corisco, e nunca mais foi vista.
Alguns anos depois, por conta de certas intrigas, Carlinhos teve uma briga feia com Lia. Enraivecida por sua irmã Catarina (que lhe botou pilha), ela deu uma figa para o comunista. Como já andava na berlinda, Carlinhos encheu a cara no bar da esquina, foi para sua oficina, onde tomou formicida com gasolina e, ainda por cima, se enforcou com a perna da sua calça de brim Coringa. Mas que sina, se matar por causa de uma mina, e ainda por cima ciclotímica? Como se explica a minha Maria gostar deste cabeça de titica? Como se explica?
Depois, já rapazinho, passei a ler poesia, e escrevia centenas de poemas para Maria. Um belo dia descobri que não a amava mais, na verdade, apaixonado pelas poesias, eu escrevia, livre daquela morfina.
Mais tarde, no meio da vida, num dia de inverno, reencontrei Maria, muito branca, no meio de uma neblina. Eu, já bem adulto, ela, magrinha, e esquisita. Parou na minha frente e me disse assim, meio contorcida:
– Bom dia, ouvi dizer que o senhor faz poesias.
– Sim, em que posso servi-la? – respondi a título de cortesia.
– Gostaria que um dia alguém fizesse para mim uma poesia tão linda, tão linda que a minha vida cor de cinza ficasse um pouco mais colorida.
Falava e as lágrimas escorriam.
– Não chore, Maria – respondi enternecido, contudo, com uma certa cisma –, logo vais ter boas notícias. Alguém que te queria escreveu maravilhas para ti, de saudades, de alegria, de penar e melancolia, e, todavia, são as poesias mais estremecidas que jamais eu vi em toda minha vida. São cento e cinqüentas poemas, e uma canção de despedida.
– Poesias para mim? – perguntou Maria, quase aflita. – Quem é este homem? Quem é ele, o senhor o conhecia?
– Sim, mas já estava de partida.
– E o senhor sabe onde estão as poesias?
– Sim, Maria, ele me deu e eu as guardei dentro de uma caixinha.
– E a caixinha? Onde está a caixinha?
– Enterrei no teu jardim, Maria, embaixo da cerca viva, fique tranquila, está bem protegida.
– Não acredito, quem seria este homem que me amava, que escrevia as poesias? Como é louca esta vida… Oh, é mesmo, aqui está a caixinha… e os papéis… e as poesias… Posso ler, moço?
– São tuas, podes ler, Maria.
Maria lia e lágrimas escorriam. Suas lágrimas pareciam brotar de uma fonte desconhecida, tingidas de agonia, como são as lágrimas tardias, e, depois, como se tivesse envolvida por loucas epifanias, me disse, praticamente implícita:
– Daria a vida para conhecer o poeta, moço, daria a vida.
– Quem sabe um dia Maria, quem sabe um dia, adeus Maria.

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