A capital do Rio Grande deveria se chamar Porto Triste, talvez Porto Reprimido, quem sabe Porto Apático, Porto Moderado, Porto Adequado, qualquer coisa menos Porto Alegre. Não sei, acho que esta nossa herança agropecuária nos deixou assim, meio arcaicos, introspectivos, com uma índole de boi no campo. O gaúcho é antes de tudo um triste. E não gosta de quem é alegre, exceto quando está viajando. No Porto Triste, homem que é homem só fala de negócios e de trabalho.Fora disso, fala pouco, ri pouco, se emociona pouco e vive pouco. Já no Porto Apático, se você disser que Nelson Mandela estava sempre dançando nas solenidades, vão responder: “Hein?”. Se você disser que vai fazer uma festa, vão responder “Pra que?”. E se você disser que acordou feliz, vão perguntar: “Por quê?”. Por aqui o que está liberado é um alegro ma no tropo, meio devagar pra não pegar mal.
É verdade, gaúcho tem um medo enraizado de ser alegre, e seu grande pavor subjacente é ser confundido com veados. Ou melhor, pessoas com opção sexual de viés não heterossexual, desculpem ter chamados essas pessoas de veados.
Sob a ótica ideológica, costuma-se dizer que a extrema esquerda guarda semelhanças e algumas afinidades com os segmentos da extrema direita. Quero dizer, quando a homofobia, seja verbal ou por atitudes, é declarada, é possível que seu portador, no fundo, tenha horror de algo que ele percebe em si mesmo. Pressente qualquer coisa de grande semelhança com o objeto de sua aversão.
Então, a gauchada que tem raiva de veado, se vale da seguinte lógica: se eu gostar de música, de dançar, de ser alegre, vão pensar que eu também sou do ramo. E ser do ramo no Rio Grande ainda é pior do que lepra.Tenho uma sugestão para estes cavalheiros. Faça o seguinte: convide seus amigos e amigas para uma grande festa, dentro de um enorme armário, com direito a Ddjay e tudo. Dance, se divirta e brinque à vontade, dentro do armário você está protegido. Não esqueça de decorar o armário com temas gaudérios. Se algum abelhudo descobrir o seu artifício, diga que você fundou um novo CTG. No Rio Grande fundar um CTG pega bem. A Secretária que o diga.

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