Com a ousadia necessária, aproprio-me de uma ideia de Mario Quintana no poema “Da primeira vez que me assassinaram”, para expressar a tristeza e melancolia que me acompanham ao ver a minha cidade, que eu amo demais, tão abandonada, tão empobrecida, tão feia, tão escura e tão desligada para assuntos relacionados à preservação da natureza, ao meio ambiente, ao crescimento sustentável. Ao transitar com mais assiduidade pelas ruas da capital gaúcha, muito pelas demandas do novo emprego que exige deslocamentos quilométricos, tenho visto cenas desoladoras: lixos transbordando com sacos mal fechados a expor a intimidade doméstica; postes sem iluminação piorando o caos da violência; vias sem sinalização, trânsito caótico, pessoas estúpidas e sem a mínima educação. Então, quintaneando, arrisco dizer que “da primeira vez que assassinaram Porto Alegre, ela perdeu um jeito de sorrir que tinha, depois, a cada vez que a mataram, foram levando qualquer coisa dela, hoje, dos seus cadáveres, ela é o mais escuro, o mais desnudo, o que não tem mais nada e arde um toco de vela amarelada como único bem que ficou”.
Simples demais. Porto Alegre não sorri mais. E não foi num gesto único e repentino. Foi como sugeriu o poema de Quintana, embora para outra situação, uma perda gradativa de alegria. Em cada nova árvore podada, em cada rua não asfaltada, em cada via urbana não iluminada, em cada assalto cometido em alguma esquina, em cada lixo que se amontoa nas calçadas, em cada obra de infraestrutura não realizada, a cidade foi deixando de sorrir. Perdendo a graça. Abandonando a responsabilidade com o morador natural dela ou com o imigrante. Pois a cidade onde nasci e na qual optei diversas vezes em permanecer sob a sua proteção, ao evitar ofertas de emprego em outros municípios deste Brasil afora, parece que não dá a mínima importância para os que nela habitam. Assim Porto Alegre suja as suas praças, enfeia seus parques, empobrece seus empresários e consumidores, permite desníveis nas suas calçadas, entope suas artérias principais com a ausência total de obras de planejamento para uma cidade que cresce a cada novo amanhecer e vai dormir cada dia mais populosa.
Triste demais. Porto Alegre não mais sorri e vive nervosa. Ansiosa com o atraso na chegada ao trabalho de seus habitantes porque os congestionamentos só aumentam e independem de horários de pico ou vias de trânsito intenso. Não precisa, por exemplo, ninguém trafegar pela Avenida Osvaldo Aranha às 18 h para ser mais uma vítima de um engarrafamento. Basta andar por uma via sem grande movimento, mas com carros mal estacionados, ônibus que não respeitam os locais das paradas, lotações que deixam passageiros desembarcarem em qualquer ponto, e o caos está formado. Dificilmente alguém consegue, em função destas encrencas, chegar na hora marcada em qualquer compromisso. A menos que seja uma pessoa extremamente cautelosa e planeje sair do seu local de partida com, no mínimo, duas horas de antecedência.
Violenta demais. Porto Alegre não sorri mais e convive dramaticamente com a violência. A cidade respira agressividade e suspira entre tapas, beijos, bofetadas, gritos, tiros e balas com destino certo ou perdidas. Em cada esquina onde o assaltante encontra um cenário propício ao seu crime, Porto Alegre assalta o seu morador. Em cada rua mal iluminada onde o drogado vislumbra uma escuridão que lhe assegure momentos de alimentar o seu vício. Porto Alegre entorpece o seu habitante. Em cada parque sem a segurança que é essencial nas grandes metrópoles e permite o estupro de seus frequentadores, Porto Alegre violenta sua cidadania. Em cada cidadão que morre assassinado, Porto Alegre mata um pouco sua cidadania.
Enfim, Porto Alegre não é mais a mesma. Não tem tranquilidade. Não desfila paciência. Não destila igualdade. Não acumula felicidade. Não transpira inteligência. Não inspira segurança. Não repassa organização. Não se mostra participativa. Não se apresenta elegante. Não ostenta lealdade. Não suspira pela paz. Não entende seus imigrantes. Não acalma seus moradores. Não é sinônimo de paz.
E já que iniciei a coluna com a ajuda do Mario Quintana, sinto-me na obrigação de encerrar o texto novamente com algo do nosso poeta, ainda que adaptado. Por isso, sinto uma dor infinita das ruas de Porto Alegre que não existem mais. Quando eu for, um dia desses, poeira ou folha levada, no vento da madrugada, serei um pouco do nada, invisível, deliciosa, que faz com teu ar não pareça mais um olhar, suave mistério amoroso, cidade de meu andar, deste já tão longo andar.
