O Brasil está podre e o fedor se sente até de fora. Qualquer ato de esperança é um grito de desespero. Lembro-me que o Plano Collor suscitou não poucos suicídios. Cícero e suas catilinárias perguntaram o tempo que Catilina abusaria de sua paciência, da paciência da sua Roma: Quo usque tandem abutere, Catilina, patientia nostra? (Até quando, Catilina, abusarás da nossa paciência?)
O prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, do PMDB, raramente palpita sobre a política nacional. Acaba de fazê-lo. Não devia. Alinhavou besteiras. Vamos aos fatos, que não engrandecem o currículo de ninguém.
Quando Fernando Collor sofreu o processo de impeachment e percebeu, durante a votação no Congresso, que seria cassado, renunciou ao mandato para o qual fora eleito. Itamar Franco, eleito seu vice, em obediência à nossa Carta Magna, assumiu a presidência e cumpriu o resto do mandato, até o seu final.
Agora, Paes vem a público para afirmar que é contra o impeachment da presidente (presidenta é a mãe), pois não acha legítimo que o vice assuma um mandato para o qual não foi eleito (pausa para gargalhadas retumbantes). Não satisfeito em permitir que a gente considere que o mandato de Itamar Franco foi exercido ilegalmente, não achou necessário exaltar os motivos pelos quais Dilma merece continuar executando atos financeiros ilegais, acho eu. Todo o poder a Dilma, então confessa o prefeito que, por desconhecer a Constituição – ou discordar dela –, não quer que Michel Temer assuma o que ordena nossa Carta, caso ela seja despachada para casa. E parece desconhecer que Temer, se assumir, também pode ser impedido e assim por diante, de acordo com a linha sucessória determinada pela Constituição.
Pode parecer ao leitor que sou a favor do impeachment de Dilma. Esse é um assunto que me permito calar, pois não é o propósito deste texto. Continuo, e isso sempre, agredindo pronunciamentos que agridem a lógica. O que Paes acaba de fazer.
E me faz lembrar que é muito grande a distância entre uma dona de casa ativa e um estadista.
Inté.

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