Senhora, eu vos amo tanto
Que até por vosso marido
Me dá um certo quebranto.
Mário Quintana
A Churrascaria Plataforma, mais ou menos na divisa do Leblon com a Gávea, nos anos 80 e 90 do século passado, foi uma reedição parcial do Antonio”s. Reunia significativa parte da inteligência carioca na hora do almoço, explicação para o nível etílico ser muito mais baixo.
Havia um rodízio entre milhares de notórios e notáveis freqüentadores e grande parte era de gente que se conhecia. Um dos mais assíduos era um deputado, boa pessoa, mas muito chata que eu apelidei de levanta-cardápio, pois quando ele entrava sozinho o recurso era esconder o rosto por trás do referido.
O italiano Alberico Campana, o dono, havia revertido uma situação de fracasso quando comprou, com o irmão Giovanni, entre 1955 e 58, três casas em Copacabana, entre as ruas Duvivier e Rodolfo Dantas. Duas delas, o Little Club e o Bottle´s Bar, entraram para a história da MPB como palcos da insurgente Bossa Nova.
O grande movimento e o barulho dessas casas noturnas transformaram o local em alvo de vizinhos insones e deram o mote para Stanislaw Ponte Preta batizar o endereço: Beco das Garrafadas, mais tarde lapidado: Beco das Garrafas.
Quando no Brasil, em seus últimos anos de vida, Tom Jobim – face à amizade desde aqueles outros tempos com Campana – fazia ponto na Plataforma, onde estrategicamente se escondia por trás de uma coluna logo na entrada. Ele via o movimento sem ser visto e Lewgoy era um dos assíduos convidados para fazer-lhe companhia. Eu era um deles e, inclusive, Tom me confessou lá uma antiga paixão por uma jornalista minha funcionária. (Quanto ao Lewgoy, assisti à cerimônia – no futuro Multipalco, em Porto Alegre – quando suas cinzas foram lá guardadas).
Tarso de Castro, um dos inventores do Pasquim, mandava colocar uma garrafa de uísque em sua mesa e lia os jornais do dia. Consta na biografia do seu filho João Vicente a tarde em que Tarso voltou para apanhá-lo. Havia esquecido.
Quando fui entrevistado por Tom Cardoso para o seu livro 75kg de músculos e fúria – Tarso de Castro, lembrei um caso que Tarso contou-me lá, durante um almoço.
Roberto Carlos e ele disputavam os favores de uma senhora e o cantor, temeroso de uma derrota, convocou o parceiro, Erasmo Carlos, e compuseram
Detalhes:
Não adianta nem tentar me esquecer
Durante muito tempo em sua vida eu vou viver
Detalhes tão pequenos de nós dois
São coisas muito grandes pra esquecer
E a toda hora vão estar presentes, você vai ver
Se um outro cabeludo aparecer na sua rua
E isto lhe trouxer saudades minhas, a culpa é sua
O ronco barulhento do seu carro
A velha calça desbotada, ou coisa assim
Imediatamente você vai lembrar de mim…
– Ele ganhou, claro… Covardia, né Mario? – queixou-se Tarso.
Por incrível que pareça, essa história da covardia ocorreu-me quando eu meditava sobre o equívoco quase sempre incluso no gesto de abrir um livro dito de “auto-ajuda”.
Ninguém deve descartar-se de buscar ajuda ou soluções em si mesmo, essa sim, a verdadeira auto-ajuda. Há, em cada um de nós, um grande potencial de soluções próprias. Esse lance do Roberto Carlos é típico de quem sabe auto-ajudar-se, usou do seu talento e ganhou a parada.
Eis um dos casos mais hilários das centenas de vezes em que me auto-ajudei.
Eu também andava muito ansioso pelos favores de uma senhora e ela, diplomaticamente, não me desencorajava, mas mantinha uma distância contrária aos meus objetivos fartamente declarados.
Uma tarde, na rua principal de uma cidade grande, avistei-a na calçada do lado contrário, resolvi partir para um “tudo ou nada”, enchi os pulmões e gritei:
– Fulana, eu te amo!
O susto e a timidez fizeram com que ela atravessasse a rua de imediato, pediu que me calasse e carregou-me para onde a gente pudesse, sem testemunhas, sussurrar e gritar à vontade.
Outra vez… não vou contar a história, mas duvido que algum desses livros ajude você a pedir a mão da amada ao marido dela. Pois é, eu pedi…
Se alguém achar que a coluna de hoje é de auto-ajuda, falha minha.
Inté.
PS. Não sei se já contei aqui uma sacada do Mário Quintana. No final dos anos 50 do século XX, o prolífero autor Fritz Kahn e alguns padres disputavam o mercado livresco com palpites sobre sexo. Uma tarde, a gente passeando na Feira do Livro de Porto Alegre, diante de tantos títulos sobre o assunto, o xará mandou:
– Tocaio, vou escrever um livro, Faça você mesmo o seu filho.
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