Prolíficos e geniais

José Antônio Moraes de Oliveira

 

"A verdade raramente convence. 

Ao contar uma estória, enfeite-a e ela será mais 

convincente do que a verdadeira. 

Se não a enfeitar, poucos inacreditarão".

 Georges Simenon.

 

 Críticos literários costumam usar o termo 'prolífico' para designar   o autor que produz dezenas de livros e que navega por muitos gêneros. Quase sempre com um sentido depreciativo, como se talento possa ser medido pelo critério de quanto-menos-melhor. Alguns críticos de cinema da geração Cahier du Cinéma cometeram esta injustiça com o cineasta John Ford. Ao escrever sobre seus clássicos far-westerns, nunca deixavam de lembrar sua extensa filmografia (mais de 140 filmes) como um pecado imperdoável. Meia dúzia de Oscars mais tarde e alguns anos depois de morto, John Ford ascendeu à galeria dos grandes do cinema de todos os tempos. 

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O fenômeno se repetiu de forma semelhante com o belga Gorges Simenon. Escritor caudaloso, produziu mais de 500 romances e novelas, incluindo 192 romances, 158 contos, dezenas de artigos  e textos jornalisticos assinados com seu nome, sem contar outros 176 romances e novelas sob 27 pseudônimos diferentes - dos quais o mais conhecido é Georges Sim.

Romancista compulsivo e de extraordinária fecundidade, Simenon demonstrou mestria no desenho de tipos humanos e descrições de ambientes. Ainda vivo, viu sua principal criatura, o anti-herói Jules Maigret ser alçado à galeria dos míticos Hercule Poirot, Miss Maple, Philip Marlowe, Padre Brown - e porque não, Sherlock Holmes. 

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George Simenon se mostra mordaz e compassivo ao percorrer a Paris sua época. Ele conuz o comissário da Polícia Judiciária, Jules Maigret pelos quatro cantos da cidade, visitando bistrots, salões elegantes nos Grands Boulevards e hotéis habitados por rufiões e prostitutas. E quando deixa Paris, vai revisitar melancólicos balneários e tristes vilarejos de sua infância. Raramente apela ao seu revólver para enfrentrar criminosos. Quando investiga um caso misterioso, procura penetrar na alma do suspeito para entender suas motivações. 

Nas 75 novelas que escreveu sobre Maigret, Simenon - como o autêntico bon-vivant que foi - convida os leitores a tomar cerveja alsaciana, um Calvados e a almoçar o plat-du-jour, quase sempre um choucrout garnie

Em sua vertiginosa produção, frequentou vários gêneros, concedeu centenas de entrevistas, escreveu textos autobiográficos e ainda se permitiu alguns exercícios de autoficção. Quando um crítico o questiona sobre sua verdadeira persona, Simenon monta um jeu de scène, fazendo Maigret ir ao encontro de personagens da vida real e de seu alter-ego, Georges Sim:

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"Eram oito horas da noite quando o Comissário Jules Maigret entrou na Brasserie Franco-Italienne, no Boulevard Montparnasse. Seu sobretudo com gola de pele estava molhado pela chuva que há dias encharcava Paris. Olhou ao redor, mas não achou quem procurava. Pensou que o dia não prometia nada de bom. Foi até o balcão e pediu uma cerveja.

"- Apareceu alguém fora do normal ?"

O polonês Vonick olhou ao redor, passou um pano no tampo de zinco e disse que não vira nada de novo. Maigret terminou sua bebida e foi até o telefone, no fundo do bar. Sabia que era tarde demais para encontrar quem procurava, mas ligou assim mesmo. 

Soltou um suspiro resignado, desligou o telefone e voltou ao bar, onde outra cerveja o esperava. Então, pesadamente, acendeu o cachimbo e examinou o salão. Na mesa ao fundo, junto ao terraço, Georges Sim, Marcel Pagnol e Alexander Korda conversavam animadamente. Quando Georges Sim o avistou, levantou e veio cumprimentá-lo.

 

"- Então, cher Maigret, na caça ou apenas para jantar?"                         

Maigret olhou para o famoso novelista e brincou:

"- Belo cachimbo, Georges, vou comprar um igual".

Enquanto examinavam as pessoas no bar, ouviu Sim provocar:

"- Interessante coleção humana, não é mesmo?

Imagino que o comissário esteja de olho em alguém." 

Naquele momento, o telefone tocou. Vonick atendeu e chamou:

"- Para o senhor, comissário!"

Georges Sim sorriu, abanou a cabeça e voltou para a companhia dos amigos. Era Lucas ao telefone:

"- Estamos em um bistrot perto da Pont Neuf.

Nosso homem pediu um conhaque duplo.

Lapointe está do lado de fora, na espreita. O que fazemos?."

Maigret terminou a cerveja, deixou algumas moedas no balcão e saiu para a rua. A chuva continuava a cair e nuvens baixas cobriam o céu de um amarelo sujo. Ergueu a gola do sobretudo e lamentou não ter ficado para o almoço.

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Autor
José Antônio Moraes de Oliveira é formado em Jornalismo e Filosofia. Atuou em jornal em A Hora, Jornal do Comércio e Correio do Povo. Trocou o jornalismo por publicidade, redigindo anúncios na MPM Propaganda. Diretor de contas internacionais, morou por anos na ponte aérea Porto Alegre/ São Paulo/ Rio/Miami/New York. Foi diretor de Comunicação do Grupo Iochpe e co-fundador do Cenp (Conselho Executivo das Normas-Padrão). Atualmente, reside na Serra gaúcha.

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