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Quero o meu presente

Adivinha quem se aproxima a passos largos, com frouxos de risos, (hô,hô,hô), aos gritos, pedindo ‘pelo amor de Deus passe para cá o seu …

Adivinha quem se aproxima a passos largos, com frouxos de risos, (hô,hô,hô), aos gritos, pedindo ‘pelo amor de Deus passe para cá o seu 13º’. Adivinha. Se adivinhar, ganha um abraço asfixiante daquele parente embriagado que todos os anos suja a tua camisa de sarabulho, ah ah ah.

Adivinha quem vai fazer você reviver um monumental estresse, gastar demais, comer demais e beber demais, tudo com alegria de menos, tesão de menos, entre abraços automáticos e votos da boca para fora? Não sabe? Não quer nem tentar? O quê? Eu não sei curtir o espírito da coisa? Tá legal, preciso voltar a fazer terapia psicanalítica. Que sujeito sou eu que não acredita nos comerciais das Casas Bahia, senhor?!  Porque esta súbita vontade de beber Cicuta quando escuto a musiquinha do Jingle Bells? Por quê? Por quê?

Foi com estes pensamentos sombrios que, durante o natal passado, adormeci no sofá e sonhei que havia caído numa fenda do tempo, uma espécie de fenômeno de universo paralelo, em que o tempo é circular. Ou seja, todos os fatos vividos durante um dia e uma noite, no outros dias e noites se repetem, ad nauseam. No meu sonho, fui sugado pela fenda até cair numa noite de Natal. Comi peru com sarabulho milhares de vezes, as minhas tias vieram me abraçar, todas com cheiro de talco e naftalina, milhares de abraços, vi meus parentes brigarem no fim da noite milhares de vezes, e no outro dia começavam tudo outra vez. À medida que meu desespero aumentava, o Papai Noel dava risadas histriônicas. No meu pesadelo, fiquei cara a cara com o Papai Noel e perguntei furioso quando é que aquilo ia terminar. Ele deu outra risada e respondeu: não sei, é você quem está sonhando.

Então comecei a gritar, quero voltar para o meu presente, quero o meu presente, quero o meu presente!!! Acordei com a parentada me olhando de cima, como seu eu estivesse num surto. Um das tias velhas disse baixinho: pobrezinho, ele não ganhou presente.

Autor

Paulo Tiaraju

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