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Quintana, quem diria?

Não tenho a data, mas tenho o texto e sei o veículo. O amigo que me revelou essa preciosidade do Mario Quintana não consegue …

Não tenho a data, mas tenho o texto e sei o veículo. O amigo que me revelou essa preciosidade do Mario Quintana não consegue achar o exemplar que me emprestou e eu devolvi.  Pedi que digitassem o texto, mas não registrei a data.  Vamos ao fatos.

Escrevi, a pedido do ator Rogério Fróes, um texto a ser encenado por ele e uma atriz, com direção minha: “Tributo a Quintana”. O amigo e advogado carioca Diniz Paiva, sabedor desse meu trabalho, emprestou-me uma preciosidade, uma edição da revista Seleções. 

Escrevi, na crônica anterior, sobre minha tarefa, na Bahia, junto a Jorge Amado, para a encomenda de um texto dele para um calendário da Rhodia, em 1969. Lembrei-me, então, da história de um texto de Drummond para um show, também da Rhodia, e dei-me conta da coincidência de um escritor e dois poetas extraordinários como participantes ocasionais do mundo da propaganda.

Prometi voltar ao assunto e, nesse meio tempo, dia 21, lendo Zuenir Ventura em O Globo, tive a imensa surpresa de saber que Fernando Pessoa, em pessoa, foi redator publicitário de oficio e participou, em 1928, do lançamento da Coca Cola em Portugal, sendo, inclusive, o autor do slogan: “Primeiro estranha-se, depois entranha-se”. Zuenir, inclusive, cita sua fonte, o livro “Cartas de amor de Fernando Pessoa”, uma edição portuguesa da Ática, de 1978, organizada por David Mourão-Ferreira, com notas e posfácio do mesmo.  Creio que além da Coca Cola o slogan entranhou-se na cultura portuguesa, pois muito depois Mário  Soares  usou-o no lançamento de sua campanha eleitoral. 

Muitos poetas e escritores brasileiros do time principal foram redatores publicitários de ofício cotidiano, como Antonio Torres, Orígenes Lessa, Ricardo Ramos e Verissimo, por exemplo, ou mesmo free-lancers contumazes. Fiquei imaginando, de brincadeira, qual seria o melhor heterônimo de Pessoa como publicitário. Artur Azevedo fazia blague dessas suas incursões na propaganda, referindo-se ao então muito famoso poeta italiano Gabriele D”Anunzzio: Gabriel do Anúncio.

Deixemos de imaginação e vamos ao texto publicado numa capa da revista “Seleções”, de autoria de Quintana, filho do Alegrete e cujo centenário de nascimento comemora-se neste 2006.

“Este Momento…

Quando a gente termina de dizer este momento, já é outro momento, pois a vida passa, e nisso está toda a tristeza e toda a beleza da vida.

Ora, a função da arte é deter esse momento que passa, é roubar a vida ao tempo para fixá-la num eterno presente…

E dentre todas as manifestações da vida, que coisa pode haver de mais efêmero que um gesto, um movimento, um passo de dança?

Fixar um momento de dança é, assim, colher a vida no que ela tem de mais fugitivo, de mais frágil, mas, ao mesmo tempo, de mais vivo. Porque o instrumento da dança é o corpo jovem, o corpo ágil, com as cordas dos músculos vibrando, com a sua elasticidade, o domínio com que se detém, como um potro obediente, sob o freio do ritmo.

Um momento desses é que vemos, hoje, fixado na capa do presente número de Seleções. São umas porcelanas do Sul, de fabricação A.J. Renner.

Que espécie de fandango lá dos pagos não estarão dançando essas gaúchas, sob a ventania das amplas saias rodadas? Bambaquerê? Benzinho amor? Feliz meu bem? Meia canha? Pagará? Pega fogo? Serrana? Tatu? Puxado? Ou simples passo de ballet, sem par como estão, mas aos pares?

É um momento e é o momento, pois nesse mundo do outro mundo, tenso e imóvel, o tempo não passa, mas a vida palpita, sempre, como um instante feliz na saudade da gente.

E nós, cá do lado de fora, ficamos a olhar, cheios de pasmo e inveja, esse mundo dos bibelôs de porcelana, mundo ideal onde não existem as lembranças do passado, sempre pungentes mesmo quando venturosas… Mundo onde também não existem as inquietações do futuro… Mundo feliz… O Mundo do Momento!”

Missão cumprida e apenas incluindo uma despedida, repito a última frase de Iago, em “Otelo”:

– E de mim, mais nenhuma palavra.

Inté.

Autor

Mario de Almeida

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