No final dos anos 60 do século passado, eu era contato na então Standard Propaganda e atendia à Viação Itapemirim. Quando a empresa comprou a linha Salvador-Rio-Salvador, inventei um coquetel de lançamento no Hotel da Bahia e usei Chico Buarque, no auge da fama, como isca, na crença de que as esposas do governador Luís Viana Filho e do prefeito Antônio Carlos Magalhães não permitiriam a ausência dos maridos. Crença mais ou menos óbvia, que garantiu a presença das duzentas mais celebradas cabeças da Bahia.
Passei os dias anteriores ao coquetel visitando os veículos e informando que a Standard Propaganda – a maior agência da época – não gostaria de ver notícias sobre Chico, sem que o motivo de sua presença na cidade fosse muito bem esclarecido.
Os executivos da imprensa e das emissoras de rádio e televisão foram sensíveis ao aviso e cumpriram o seu papel.
Face ao prestígio resultante das personalidades aparecidas no telejornal e muitas matérias sobre o evento, seria difícil calcular quantas vezes os custos do evento foram multiplicados pelo valor – se pago – da inserção da Itapemirim na “mídia”, ainda grafada corretamente como “media”.
Em poucos dias, como num passe de mágica, a empresa capixaba do mesmo berço de Rubem Braga, Darlene Glória, Roberto Carlos, Jece Valadão e Carlos Imperial ganhou, também, identidade baiana.
No texto do anúncio que fiz questão de redigir, prestei tributo à Bahia fazendo uma paródia publicitária de um ícone da Tropicália, Alegria, Alegria, de Caetano Veloso e cujo início é:
Caminhando contra o vento
Sem lenço, sem documento
No sol de quase dezembro
Eu vou
O diretor de Arte dispôs o texto como uma rodovia e o anúncio cumpriu o seu papel de vender muitas passagens.
Na oportunidade, levei para a Bahia algumas sugestões de anúncios para discussão com Camilo Cola, dono da Itapemirim. Um deles era em cima de um grande ponto-de-venda da empresa: todos os ônibus interestaduais, anualmente, eram substituídos por outros 0 km. O título era em cima do fato: “Temos um ótimo negócio – Vender ônibus usado”.
Camilo viu, leu e coçou a cabeça:
– Magnífico Mario, cumprimente a Criação, mas peça para eles darem uma mexida, pois acertaram, essa venda é mesmo um ótimo negócio e não quero enfatizar o fato.
– Seu Camilo, vamos passar para os outros anúncios, pois esse já está condenado. Anúncio não é pneu e não aceita recauchutagem. Não vamos descartar o ponto-de-venda, mas o enfoque tem que ser outro.
Quanto ao Chico Buarque que consegue a fama de tímido, mesmo sendo um inefável gozador, no avião de volta, num determinado momento, deu-me uma cotovelada sutil e me avisou que confirmara que eu era o Carlos Imperial. Dei uns 20 autógrafos.
Empresário de uma das maiores empresas de transporte rodoviário das Américas, há tempos encontrei Camilo Cola no Aeroporto Santos Dumont, onde iria embarcar no seu jatinho.
Ao nos despedirmos, ele recomendou:
– Mario, não precisa comentar o local desse nosso encontro.
– Boa viagem, seu Camilo.
Como faz muito tempo, esqueci.
Inté.

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