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Novembro de 2003, 49ª Feira do Livro de Porto Alegre, o jornalista e escritor Zuenir Ventura, a convite, fez uma palestra sobre os 35 …

Novembro de 2003, 49ª Feira do Livro de Porto Alegre, o jornalista e escritor Zuenir Ventura, a convite, fez uma palestra sobre os 35 anos do Ato Institucional nº 5, o AI-5, que deu ao Brasil o status de Estado Assassino. Também a convite, escrevi um texto de 60 minutos para uma leitura pública com meus antigos companheiros do Teatro de Equipe ainda residentes no Sul. Ambos os eventos, muito concorridos, aconteceram na antiga sede da Companhia Estadual de Energia Elétrica, hoje o Centro Cultural CEEE Erico Verissimo.

Sabendo, pela programação, da presença de Zuenir, levei meu quarto ou quinto exemplar do livro 1968 O ano que não terminou para receber o autógrafo do seu autor. Exemplares anteriores, eu dei, na minha casa, a visitas jovens que precisavam conhecer os acontecimentos que levaram o Brasil a assumir o status de Estado Assassino. O exemplar que levei é da 28ª edição, de abril de 1995, 8 anos depois do lançamento do livro.

Dias atrás, motivado pelo início, na TV, de uma minissérie sobre o ex-presidente Juscelino, Zuenir publicou em O Globo um artigo que remeteu nossas lembranças aos “anos dourados” que, registra ele, inauguraram a bossa nova, assistiram à estréia da parceria Tom/Vinícius na peça do poetinha, Orfeu da Conceição, festejaram as pernas tortas de Garrincha e marcaram o início de carreira do depois aclamado “atleta do século XX”, o rei Pelé.

Face o tormentoso momento de hoje, mais execrável que a eleição e a renúncia do equívoco Jânio Quadros, Zuenir resgata uma das “visões” geniais de Nelson Rodrigues. Reproduzo aqui, por sua pertinência, a parte final do artigo de Zuenir que, na íntegra, está em O Globo de 8 do corrente:

“(…) Quem melhor entendeu o papel de JK foi Nelson Rodrigues, que disse: “Ele trouxe a gargalhada para a presidência”, referindo-se ao alto-astral do presidente e ao seu gosto por prazeres como a dança e o namoro. Para o dramaturgo, não importavam os erros cometidos — inflação alta, dívida externa, suspeitas de corrupção – nem mesmo as grandes realizações materiais, Furnas, Três Marias, indústria automobilística, Brasília – mas, sim, o que ele fez com o homem brasileiro: “Sacudiu, dentro de nós, insuspeitadas potencialidades. A partir de Juscelino, surge um novo brasileiro”.

Em outras palavras, do próprio Nelson, JK acabou com o nosso complexo de vira-lata. Para os que tentam imitar o “Presidente Bossa Nova” ou se parecer com ele, Nelson Rodrigues fez uma advertência há mais de 40 anos que é válida até hoje, como a minissérie mostrará: “O Brasil só conheceu um Juscelino”. Cuidado com as imitações.”

Agora, reminiscências pessoais. Há muito tempo, bem antes do fim do século passado, Henfil, Zuenir e eu fomos jurados num concurso de desenhos feitos por crianças faveladas do Rio. E o meu exemplar do livro dele ganhou a seguinte dedicatória: “Por esse nosso reencontro, Mario, o meu abraço emocionado. Só não quero esperar mais 30 anos para te rever. Porto Alegre, 8-11-03”.

Depois disso, nos revimos, de passagem, na noite de autógrafos, no Rio, do livro do Flávio Tavares, O Dia em que Getúlio matou Allende. Naquela ocasião, 7 de junho de 2004, depois de décadas sem o ver, bati um longo papo com Brizola. Infelizmente, o último.

Inté. 

Autor

Mario de Almeida

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