Rua

Por Flavio Paiva

Nunca andar livremente pela rua foi alguma coisa tão valorizada e esperada. Os dias, além de muitas esperas, medos, receios, são cheios de expectativa da reconquista da rua. 

Porque andar tranquilamente pela rua envolve algumas coisas, como: o não uso de máscara (quando isso for possível, claro. Vacina, etc), o contato direto com sol e até a conversa com ele (o corpo precisa do sol, o espírito também). Entra ainda a retomada de algo que sempre nos pertenceu: o espaço público, as calçadas, os cafés, restaurantes, parques e praças, orla, enfim, uma série de espaços que estão momentaneamente subtraídos de nós (por necessidade? Ok, mas subtraídos) e que fazem muita falta. Andar pela rua significa algo também que é intrínseco ao mais humano do ser humano: encontrar pessoas, com algumas conversas ou mesmo trocar um sorriso e deu. 

Mas esta coluna não vem aqui fazer uma ode ao saudosismo. Saudade sim, sem dúvida. Falta? Nem é preciso dizer. Mas a grande maioria das coisas na vida tem começo, meio e fim. Pandemias também. Então, por ora encontrar aqueles meios possíveis para segurar a onda (expressão que eu tenho usado muito mesmo nos últimos quatro meses). Não sem sentir o tranco nem esperar e até pressionar para que isso esteja chegando perto do fim. 

Os gestores públicos já entenderam que as pessoas não estão suportando mais da mesma maneira que antes esta quarentena e que muitos acabam por furar, seja por necessidade econômica, psicológica e, sim, há os que por pura falta de consciência. Mas que está claro que os poderes públicos compreenderam que chegamos ao limite, não tem dúvida. 

Uma ótima notícia é a de que há várias vacinas em fases finais de teste e algumas já sendo testadas em grupos de voluntários ao redor do mundo. O mundo todo mobilizado para fazer a ou as vacinas contra o Covid-19.

Mas voltando e sem querer comparar nem de longe em uma certa medida a situação de quarentenados como a que estamos passando lembra a de as populações em uma guerra. Claro que em uma guerra há ainda mais restrições e dificuldades, com ameaça de bombardeiros e invasões e uma enorme dificuldade de conseguir se sustentar. Quanto à dificuldade de conseguir se sustentar, ela está também presente na pandemia para um número bastante expressivo da população. Já o tamanho do medo, acho que estes se diferenciam. Em uma guerra ele consegue ser ainda maior, não que o de agora seja pequeno para muitas pessoas. 

Volto à reconquista da rua. Quando reconquisto a rua, reconquisto meu direito e autonomia de circular esse espaço sem medo maior, tão grande como o atual. Andar pela rua de forma tranquila. É igual a circular pela vida de forma tranquila. Não de forma inconsciente, bem longe disso, mas de forma tranquila, porque tranquilidade é equilíbrio e consciência. Que esteja muito próxima a hora de andarmos pelas ruas de novo. Pela vida, de novo. E ela está próxima, tenho certeza de que falta pouco. 

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