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Salvei o sábado

Havia me programado, hoje, para escrever sobre duas tragédias acontecidas no século passado, anos 54 e 64, e todas as tentativas de golpe feitas …

Havia me programado, hoje, para escrever sobre duas tragédias acontecidas no século passado, anos 54 e 64, e todas as tentativas de golpe feitas desde o movimento que levou Vargas ao suicídio, até a implantação, em 64, do mais ignóbil e infame período da nossa história republicana.

Acordei, porém, neste sábado em que escrevo, com um bom humor tão grande, que me lembrei do grande Álvaro Moreyra, escritor gaúcho que reuniu suas memórias com o título de “As amargas, não…”. Resolvi poupar-me de memórias que sempre, sempre, reacendem meu ódio a Castelo Branco, Costa e Silva, Médici, Geisel, Figueiredo e a todos seus apaniguados, tipo Brigadeiro João Paulo Burnier, delegado Sérgio Fleury, Armando Falcão e caterva.

Preservou o meu bem humor a lembrança de outro 54 – 1554 – data da fundação da cidade de São Paulo pelos padres jesuítas José de Anchieta e Manuel da Nóbrega.

Voltemos ao tempo. São Vicente, no litoral paulista, vizinha de Santos, que eu conheci e freqüentei ainda nos anos 40 – é a mais antiga cidade brasileira, habitada desde 1530 e onde houve a cultura, em grande escala, da cana de açúcar.

Conheci São Vicente com praias ainda virgens, como as das Vacas e Grande, que poderiam, sem dúvida, serem filiais do Paraíso. Foi lá, em São Vicente, que Anchieta e Nóbrega se ocupavam com a catequese católica da população indígena.

Eu nasci em Campinas, SP, mas, criança ainda, minha família mudou-se para a capital e lá cresci. Minha curiosidade foi despertada assim que conheci São Vicente – um paraíso – e comparei com São Paulo, cuja área, num planalto com mais de 800 metros de altitude, além de não ter praias, é cheia de morros. O clima sempre úmido, que batizou São Paulo como a “terra da garoa”, foi amenizado pela Represa de Billings e seu espelho d”água com 124 quilômetros quadrados, obra terminada em 1935. Billings foi criada para resolver o problema de energia elétrica, mas a cidade exigiu, também, a construção de viadutos, túneis, passagens subterrâneas e a canalização de pequenos rios. Minha lógica não entendia como os jesuítas preferiram, a apenas 60 quilômetros de São Vicente, condições tão impróprias para fundar uma cidade.

Numa manhã, deitado de barriga pra cima, nas areias da Praia das Vacas, contemplando um céu azul, sem nuvens, acho que encontrei a resposta. Anchieta e Nóbrega, jesuítas, resolveram confessar-se, mutuamente. E daí, acabaram confessando suas transas com as índias…

Penitência: fundar São Paulo.

Apesar das ladeiras e do clima, São Paulo era uma cidade progressista, civilizada, gostosa e fácil de se viver. Lá nasceram o Teatro Brasileiro de Comédia, o Teatro de Arena, o Oficina, as companhias cinematográficas Santa Cruz e Maristela, o primeiro museu brasileiro de arte moderna e a Bienal de São Paulo, hoje referência internacional obrigatória de artes plásticas. A Biblioteca Municipal, hoje Mario de Andrade, era super atualizada e, mal acontecia um lançamento de importância internacional, a biblioteca já recebia o livro. Discoteca pública facilitava a audição de música erudita, e cinemas de luxo, com elevadores e amplas poltronas, vendiam conforto. Uma malha de bondes e de ônibus resolvia o transporte de massa. Em todos os bondes havia um cartazete que promovia o progresso paulistano: São Paulo, maior cidade industrial da América Latina.

Terminadas, em 1954, as comemorações do IV Centenário de São Paulo, aquele cartazete começou a mexer com minha cabeça. O trânsito já não era tão fácil, uma pobreza periférica começou a se aproximar dos bairros residenciais, o fluxo de imigrantes começou a crescer e eu tive a intuição que a minha São Paulo começava a sofrer dos males das grandes metrópoles.

Num determinado dia, reuni meus amigos mais próximos e anunciei a partida.

No Carnaval de 1955 desembarquei no Rio e o grande sucesso era o samba da Zilda do Zé: Recordar é viver.

Há muito que aquela São Paulo e aquele Rio que não existem mais, só vivem em minhas recordações muito remotas.

Inté.

***

Propaganda – Em todos os bondes também havia um cartazete com os famosos versos do poeta e farmacêutico Ernesto de Souza: “Veja, ilustre passageiro /o belo tipo faceiro /que o senhor tem a seu lado /E, no entretanto, acredite, /quase morreu de bronquite, /salvou-o o Rhum Creosetado”.

* Mario de Almeida é jornalista, publicitário, dramaturgo, autor de “Antonio’s, caleidoscópio de um bar” (Ed. Record), “História do Comércio do Brasil – Iluminando a memória” (Confederação Nacional do Comércio) e co-autor, com Rafael Guimaraens, de “Trem de Volta – Teatro de Equipe” (Libretos).

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Autor

Mario de Almeida

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