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Samba na Internet

1o Brasil as coisas acontecem, mas depois, com um simples desmentido, deixam de acontecer.                      

1o Brasil as coisas acontecem, mas depois,

com um simples desmentido, deixam de acontecer. 

                                                                 Stanislaw Ponte Preta 

Segunda-feira anterior ao Carnaval, antes de dormir, abri Coletiva para saber como havia saído a minha crônica. A referida foi enviada num tamanho bem maior que o habitual e achei correto que houvessem dado uma “enxugada” na mesma. Enviei para o diretor de Coletiva, José Antônio Vieira da Cunha, um e-mail, achando o corte legal, mas pedindo para retirar a epígrafe, pois o autor dos versos,  Vicente de Carvalho, por ser citado na parte cortada, deixou-a mais perdida que o Governo quando anunciou que este ano não haveria aumento no preço da gasolina.

A resposta preocupou-me, pois a velhice atropela-me a toda hora com erros, equívocos e coisas*:

“Mario, desculpe, mas temos aí um samba do crioulo doido se configurando. Nós aqui não fizemos corte nenhum e, portanto, deve ter ocorrido algum problema no caminho. Por favor, reencaminhe o material com urgência, para que eu faça a substituição pelo texto correto (a propósito, tamanho não é documento, neste caso: teus textos são sempre saborosos, razão pela qual não tem leitor que fique enfarado ou coisa do gênero com o tamanho deles…).

Abri o e-mail da crônica nos “enviados” e lá estava ela, na sua impoluta integridade e no tamanho que o gentil amigo Vieira não acha excessivo. Mandei a crônica na sua versão original e ela já pertence aos arquivos de Coletiva. Poupo o trabalho dos mais curiosos e insiro aqui o que foi “atropelado” pela Internet: 

Minha última crônica foi uma pequena oferenda a Paschoal Carlos Magno, em  meio às comemorações do centenário do seu nascimento. Entreguei para vocês o apelido com o qual ele me distinguia: Vaca Sagrada. Esqueci-me, ou a modéstia omitiu, o início de uma amizade que se prolongou até o adeus.

Coube-me a alegria de inaugurar o Teatro Arthur Azevedo, em 1956, em Campo Grande, Zona Oeste do então Distrito Federal, dirigindo, uma peça do próprio,  “A Almanjarra”. Paschoal acompanhou, na inauguração do teatro, o então prefeito Negrão de Lima. Entusiasmado com o espetáculo, decidiu que teríamos que fazer uma apresentação no seu Teatro Duse, em Santa Tereza, para o qual – surpresa nossa – carregou toda a crítica teatral do Rio.

Essa apresentação colocou numa vitrine o então bancário Rogério Fróes, talento de ator mais que comprovado nestes últimos 50 anos. O espetáculo, depois premiado no mesmo festival que revelou para o Brasil Suassuna e seu “Auto da Compadecida”, além de só receber elogios pela imprensa, deu-me de presente amizades valiosas e definitivas, como as de João Augusto, no Diário Carioca, depois na Bahia e onde mais esteve, e Arnaldo de Carvalho, da maior revista do seu tempo, “O Cruzeiro”. Arnaldo, além de critico teatral, tinha uma coluna onde catava acontecimentos esdrúxulos do mundo e era filho do poeta santista Vicente de Carvalho. Pessoa delicada: em vez de colocar na sua crítica super entusiasmada os pequenos reparos à minha direção, preferiu fazê-los pessoalmente e sem testemunhas.

A partir desse empurrão na minha vida profissional, Paschoal inseriu, para sempre, esse misterioso “Vaca Sagrada” na minha identidade.

Esse trecho, que a Internet não aprovou, referia-se a Arnaldo de Carvalho e justificava a epígrafe dos mais conhecidos versos de seu pai, Vicente de Cavalho:

Essa felicidade que supomos
árvore milagrosa que sonhamos
toda arriada de dourados pomos

existe sim; mas nós não n´a encontramos,
porque está sempre apenas onde a pomos
e nunca a pomos onde nós estamos.

A referência de Vieira da Cunha ao “samba do crioulo doido” remeteu-me ao autor de sua letra e música, o  bancário que se tornou jornalista,  radialista, humorista,  teatrólogo, profissional de TV e compositor nas horas vagas, Sérgio Porto (1923/1968) que, inspirado no Serafim Ponte Grande do Oswald de Andrade, criou o inesquecível Stanislaw Ponte Preta, figura obrigatória em qualquer história sobre o humor no Brasil. 

Stanislaw não perdoou as bobagens que surgiam em muitos sambas-enredos relativos à nossa história e criou – letra e música – o “Samba do Crioulo Doido”:

Foi em Diamantina
Onde nasceu JK
Que a princesa Leopoldina
Arresolveu se casá
Mas Chica da Silva
Tinha outros pretendentes
E obrigou a princesa
A se casar com Tiradentes
Lá iá lá iá lá ia
O bode que deu vou te contar
Lá iá lá iá lá iá
O bode que deu vou te contar
Joaquim José
Que também é
Da Silva Xavier
Queria ser dono do mundo
E se elegeu Pedro II
Das estradas de Minas
Seguiu pra São Paulo
E falou com Anchieta
O vigário dos índios
Aliou-se a Dom Pedro
E acabou com a falseta
Da união deles dois
Ficou resolvida a questão
E foi proclamada a escravidão
E foi proclamada a escravidão
Assim se conta essa história
Que é dos dois a maior glória
Da. Leopoldina virou trem
E D. Pedro é uma estação também
O, ô , ô, ô, ô, ô
O trem tá atrasado ou já passou

Esse samba foi cantado em público, pela primeira vez, pelo Quarteto em CY,em 1966, no Teatro Toneleros, em Copacabana, no “Show do Crioulo Doido”,  acontecimento comandado pelo próprio autor da doideira. Em 1967 as irmãs baianas Cyva, Cybele, Cynara e Cylene, do quarteto batizado por Vinicius de Moraes, gravaram a música que, imediatamente, ganhou o Brasil, através da divulgação pelas emissoras de rádio. Pouco depois,  o “samba do crioulo doido” ganhava o status de expressão popular significando bestialógico, confusão ou mistura de assuntos, conforme bem a usou Vieira da Cunha, comemorando os 40 anos de seu lançamento.

Se algum leitor achar que mais uma vez excedi-me no tamanho da crônica, tenho o indulto  antecipado do meu diretor-editor. Quanto a Internet, se reincidir, aproveitarei para recauchutar esta crônica, mas espero que não corte a última palavra.

Inté.

Autor

Mario de Almeida

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