Verissimo – o Luis Fernando – está completando 70 anos, nesta terça-feira, dia 26. Nunca imaginei testemunhar isso. Não por ele. Por mim.
Conheci Luis Fernando, seu pai – Erico –, sua mãe –Mafalda – e, quando se casou, a Lúcia. Luis Fernando tinha 20 anos, tocava sax, desenhava e as letras não habitavam seus sonhos. Aos 70 anos, é o mais admirado e festejado cronista brasileiro.
O jornal Zero Hora deu uma grande matéria sobre o gaúcho velho. O repórter, entusiasmado, quis colocar Verissimo no Guiness de recordes e escreveu que ele ultrapassou 5 milhões de livros. Exemplares vendidos é mais razoável.
Há uma afirmação na matéria que me agrada: vende no Brasil mais que Paulo Coelho. O que mais me agrada é que nas estantes que freqüento, abarrotadas de Verissimo, não há Paulo Coelho.
Não sou dado a invejas. Exceção: escreveu, e Joaquim Fonseca ilustrou, Traçando Paris, Traçando Roma, Traçando New York, Traçando Japão e Traçando Madri. Em jornada de preguiça, entregaram ao editor Traçando Porto Alegre.
Verissimo, aos domingos, ocupa o alto da página 7 de O Globo e, logo abaixo, João Ubaldo Ribeiro. O gaúcho mais seco de palavras que Graciliano Ramos e um perdulário delas, o caudaloso baiano, denunciam, pelo espaço, seus estilos. João Ubaldo só se exprime com o dobro de palavras do gaúcho. Verissimo se espreme só com a metade.
Somente 47 anos depois de conhecer Verissimo, ouvi, no Rio, o seu sax. Concluí que ele escreve por ofício. Viveria muito bem como músico profissional, mas não quis perder o prazer.
Verissimo disse que vai votar no Lula por força do hábito. Eu não. Prefiro votar num leitor dele.
A mágoa dele é ainda não ser avô. Eu estava com minha neta na Livraria Argumento quando vi uma foto do escritor, recortada em tamanho natural, num cartão grosso. Fotografei a neta ao lado e pedi que a amiga Vera Verissimo entregasse a ele, para não fingir uma intimidade que, é provável, a gente venha a ter nos próximos 70 anos.
Em 2002, fui a Porto Alegre a convite da Feira do Livro. Num dia em que ele daria autógrafos, publicou uma crônica sobre o esquecimento dos nomes de pessoas conhecidas que acontece nessas ocasiões. Fomos, o amigo Milton Mattos e eu, com dois grandes cartazes, no peito, com nossos nomes. Ele percebeu a gozação e deu o troco: entregou o livro do Milton para mim e o meu para o Milton.
Quando assisti ao Analista de Bagé com o Paulo César Peréio no papel-título, achei que haviam sido feitos um para o outro. Nas artes, é claro.
A Zero Hora publicou uma seleção de frases de Verissimo escolhidas por personalidades amigas. Eu prefiro uma única, repetida por ele, sempre que a gente se vê: – Oi.
Dita apenas por gesto, jamais com som.


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