Dificilmente escrevo na primeira pessoa, mas hoje simplesmente resolvi bater um papo com você, meu leal e destemido leitor, como se a gente estivesse numa mesa de bar. Será que sou eu ou, neste inverno, muita gente anda olhando de lado, assim, meio egípcio? Caramba, quando este céu de chumbo se mantém por tanto tempo, a umidade vai criando bolor na alma das pessoas! Fica todo mundo com cara de domingo-seis-da-tarde, todos os dias da semana. Não é melancolia, não é deprê, é a ausência do sol, de cor, de luz, é como estar entre o tédio e a rotina, nas bordas de uma náusea existencial.
Você não? Eu, sim. Claro, respiramos, trabalhamos, lemos, almoçamos, conversamos, mas, sem sol, tudo fica sem sal. Pimenta? Nem pensar. Tesão? Não sei, cada um sabe da sua, mas a paixão nossa de cada dia, aos poucos, descreve um arco, se afasta e se queda, imóvel, no meio de um nevoeiro, desculpe o excesso de abstração, mas enxerguei a cena. E também enxerguei o vulto de um tipo mal-humorado, de poncho cinzento, caminhando num charco e na chuva, com as botas enlameadas. É o inverno gaúcho.
Gente fina.
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Parece filme de terror
Não vale a pena falar sobre o ex-goleiro Bruno e cia. A grande imprensa já noticiou exaustivamente, sem nos poupar dos detalhes sórdidos e macabros.
Mas, de todo o episódio, no entanto, há uma nota tão bizarra quanto seus personagens, e que deixa a todos nós inconformados: por que a Juíza Ana Paula Freitas, do 3º Juizado da Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, não mexeu uma palha com o intuito de dar as mínimas condições de proteção para a queixosa Eliza Samudio? Por que ela se omitiu e deixou Eliza Samudio entregue à própria sorte, à sanha das bestas? Por causa de uma firula da lei. A juíza bradou estar sendo injustiçada, porque, segundo ela, a lei determina que só haverá proteção para mulheres que tenham vínculo com homens, seja casamento ou relação duradoura. Quer dizer, para a lei, e para juíza, se a mulher for ameaçada e assassinada por um ficante, isso não é da competência do seu juizado. Entendi. Ela não está ali para proteger a vida de uma mulher ameaçada de morte. Ela está ali para seguir a letra fria da lei. Se a vítima e queixosa não for casada, nesse caso, que morra. O seu risco de morte não está na lei. Fora do que está no manual, o mundo pode explodir. A juíza seguirá dormindo o sono das justas. E fica por isso mesmo. Parece filme de terror.

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