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Sons do passado

Por José Antônio Moraes de Oliveira

Era ainda verão, mas aquela tarde mostrava um jeito disfarçado de primavera. Crianças brincavam, mas logo corriam para casa, atendendo a chamada das mães. O sol se escondia por detrás das altas árvores, quando casais de cabelos brancos foram chegando na praça, arrastando suas cadeiras de palha. No coreto, músicos sopravam seus instrumentos, espalhando notas esparsas pela quietude do fim-de-tarde.

***

O casario colorido e o perfume dos jasmim-manga foi o que restou dos tempos passados. De quando se cultivava nas casas jardins e pomares e nos campos sem cercas, rebanhos pastavam soltos. Aqui e ali, ainda se via os antigos marcos de pedra, com iniciais dos Alencastros, Vieiras, Gomes Garcia, Castillos e dos Buenos. Mas aconteceu que um dia surgiram os renegados e os ladrões de cavalos e a vida virou ao avesso. 

Os homens de bem, que trocavam cordiais bons-dias e boas-tardes começaram a discutir e não se entender, brigando por qualquer me dá aquela palha. O mais incomodado era o Padre Anselmo. Com seus cabelos arrepiados e a batina suja de cinzas, apontava para as marcas de tiros na torre do sino, clamando enquanto os homens dormem o sono dos justos, o demônio fica de olho aberto. E nos longos sermões de domingo, falava ainda mais duro, para desgosto dos figurões no banco da frente, de braços cruzados e olhar de desentendidos.

***

Muito tempo passou – para tudo e para todos. Mas nem parecia ter passado para o morador do solar branco que ficava ao lado da igreja. Ali uma figura alta e esguia respirava pesadamente. Era um dos poucos cavalarianos sobreviventes da revolução de 23. Se balançando na cadeira que era do avô, mantinha o olhar na parede, onde dois sabres de cavalaria se cruzavam sobre uma desbotada bandeira vermelha-e-verde. Tentava acalmar seu coração, mas os sons que entravam pela janela aberta o incomodavam demais. Largou um resmungo:

“- Mais um daqueles pesadelos…”.

Ao apurar o ouvido, lhe pareceu que aqueles acordes eram os mesmos de uma serenata que ele cantava para a moça de tranças do casarão azul. Caminhou até a janela – a praça ainda estava banhada pela luz dourada do sol poente. Mas não havia nenhum casarão azul nem músicos no coreto. Foi quando ouviu, vindo de longe, um guincho de metais arranhados. 

***

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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