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Sorte na vida

Conheci muitas pessoas que gostavam de predizer que as coisas iriam dar erradas, haveria malogro, insucesso. “A vida não é brinquedo, meu guri”. O …

Conheci muitas pessoas que gostavam de predizer que as coisas iriam dar erradas, haveria malogro, insucesso. “A vida não é brinquedo, meu guri”. O “meu guri” era para se por numa patamar acima, mesmo que eu já fosse um adulto, casado e com filho. Outros gostavam de dizer que não eram sonhadores. O “sonhador”, no caso, era um irresponsável, lunático, alguém indigno de confiança. Levei algum tempo para me dar conta de que, de fato, aqueles caras não podiam sonhar, eles não podiam. Não se encorajavam a sonhar, por absoluta convicção de que jamais iriam realizar os seus sonhos, jamais. Sequer se davam o benefício da dúvida. O tempo, sempre ele, me tirou daquela convivência com pessoas cujas premonições fatalistas as empurraram para a fatalidade. Isso me fez lembrar a surrada, mas sempre pertinente, piada do hipocondríaco. Ele criou seu epitáfio e mandou escrever em sua lápide: eu não disse?

Quando eu me lembro da palavra sorte imagino um homenzinho num enorme andaime que ele mesmo construiu. Lá está ele no alto da estrutura, esculpindo a palavra sorte, na encosta de uma montanha rochosa. Em sua odisséia metafórica ele está nos dizendo o óbvio: a sorte é resultado daquilo que a gente sonha, e depois elabora, mas sobretudo labora, transpira, rala, dá duro. Quando a gente faz tudo isso, junto com o tempo, aí sim, tudo começa a cair do céu. Tudo de bom cai na tua cabeça, pela simples razão de que, ao trabalhar no teu projeto, você entra em rotação na grande roda humana de trocas, de serviço (aquele que serve) ao próximo, de ser necessário, e às vezes imprescindível.

Neste cenário fica mais fácil supor o quanto algumas profissões podem se tornar verdadeiras armadilhas, na falta da vocação. A semente da crise vocacional pode estar na falta de sinceridade do candidato com os seus semelhantes, no âmago da sociedade. A garota quer ser médica por várias razões, mas não professa a motivação essencial para este ofício: a de servir às pessoas enfermas.

Tá bom, esquece do exemplo monumental, da montanha, da sorte esculpida numa vontade de rocha. Pega o exemplo do pastel, pronto. Ali na Protásio Alves, lá em cima, ao lado da Delegacia, tem a pastelaria do Alemão. Eu e o Luiz Fernando Veríssimo sabemos que se trata do melhor pastel de Porto Alegre, quiçá do Rio Grande. O negócio é o seguinte: o Alemão e a sua mulher começaram um modesto café de calçada e resolveram servir um pastelzinho também. Eu imagino que, para fazer um pastel sequinho, crocante, com recheio saboroso (o guisadinho bem compacto, sem vento) com ovo duro na medida, foi algo pensado. Não fica bom por acaso. E agora a fórmula do sucesso: você passa lá, pede uma cafezinho e um pastel. Na primeira mordida vem a confirmação: é o mesmo pastel, o de sempre, sequinho, crocante, delicioso, com a mesma excelência de 10, 15 anos atrás. Ou seja, o Alemão, e a esposa, nunca perdem o foco, nunca descuidam da missão. Eles se mantêm leais à vontade de esculpir na montanha da opinião pública a ideia de que fazem um pastel memorável, o melhor pastel de Porto Alegre. A principal qualidade do pastelzinho, na verdade, é o pulo do gato: ele vem recheado de honestidade com a vida.*

* Alemão, quero comer uma semana sem pagar. 

Autor

Paulo Tiaraju

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