*Texto publicado originalmente em agosto de 2004.
Nunca fui racista, mas já fui vítima do racismo em Nova Iorque, quando pedi informação a um negro que alegou não falar com branco. Vinguei-me, fundindo, de estalo, a cuca dele. Disse-lhe – “Eu também não” – e me mandei. Certa vez, Lara de Lemos, a socióloga Moema Toscano e outras intelectuais feministas faziam uma reunião em minha casa e, quando servi um cafezinho, Moema me fez uma pergunta sobre o feminismo. Respondi com uma gracinha e Moema caiu na minha armadilha: – Que machismo! – Claro, fui criado pela minha mãe. E, acrescentei: – Sempre assinarei manifestos contra discriminação de negros, judeus, homossexuais, minorias e mulheres. Só não posso sentir o que esse povão sente.
Esse imenso “nariz de cera” é para explicar que a postura nunca transformou meu vocabulário em alguma coisa “politicamente correta”, como se prega hoje. Sempre usei a palavra correta para identificar mais fácil alguém de um grupo, como o gaúcho faz, por exemplo, com o “magro” Ivan, ou o “gordo” fulano. Milton Mattos e eu sempre nos referimos ao ido Glênio Peres como o “negro Glênio”, um pardo claro que a gente, por imenso carinho, resolveu carregar nas tintas. Eu tinha poucos dias quando Francisca – Chica, uma negra com 17 anos – foi trabalhar em nossa casa, em Campinas. Chica ajudou minha mãe, Ruth, a criar os seus quatro filhos e, depois, ajudou minha irmã Célia a criar os quatro filhos dela. Foi-se, há poucos anos, em Ribeirão Preto, aquela a quem, com muito amor, sempre me referi como minha “mãe preta”.
Isso colocado, acho absolutamente incorreto a gente se desviar de uma identificação mais fácil para fugir à classificação de preconceituoso. Não considero nenhuma raça melhor que outra e jamais me ofenderia de ser chamado, numa comunidade negra, de branco ou branquela. Minha condição heterossexual é uma opção (ou contingência?), e faltam-me centenas de dedos para contar minhas grandes amizades com homens e mulheres homossexuais.
A medicina inventou expressões “politicamente corretas” para determinadas deficiências, como as de olhos e ouvidos e, então, a coisa complicou. Conheci o grande artista plástico Xico Stockinger em 1957 e, desde aquela época, fui gratificado com sua amizade. Naquele ano, Xico ouvia bem. Começou a sofrer uma perda auditiva e, durante anos, acompanhei sua trajetória de deficiente auditivo. Há tempos, Xico ficou surdo e foi “promovido”, só na linguagem, a deficiente auditivo. Eu, por exemplo, por deficiência visual, uso um par de óculos para perto e outro para longe. Sou um deficiente visual, e se tivesse casado com minha mãe poderia ter furado os olhos, igual a Édipo, e ficado cego.
Claro que sei que essa deficiência refere-se a um dos sentidos, ou seja, é uma deficiência parcial em relação a todo o organismo. Daí, manda a lógica que um surdo-mudo não seja “um” deficiente, mas “dois”. A minha confusão aumentou. Fui surpreendido com a seguinte nota na coluna de Joaquim Ferreira dos Santos, em O Globo, semana passada: “O jargão politicamente correto recomenda agora que o homossexual não seja mais tratado como tal. Segundo recente encontro que discutiu a temática GLS no país, o termo mais apropriado pra se dirigir a um homossexual é ‘homoafetivo’. Entendido?” Se “homo” é igual ou iguais, esse “homoafetivo” cabe em qualquer relação na qual os afetos são iguais, como eu pretendo que a relação com a minha dona – Áurea – seja igual em emissão, sintonia e reciprocidade. Esse vocábulo deve valer para todos os afetos iguais, inclusive pela linda amizade entre mim e nossa cadela Pretinha que, nesse momento, lambe meu pé direito.
Com ou sem trocadilho, acho toda essa linguagem politicamente correta uma grande frescura. Grande abraço para meus amigos negros, judeus, homossexuais, cegos, surdos e, é claro, para todas as mulheres do mundo. No último caso, com beijos também.
Inté
Vitrine (Comentários sobre a coluna anterior, de 18.03.2011)
Tá vendo? Às vezes até uma “encontrada” casual no canteiro central do condomínio pode render uma crônica divertida… Abração, Eduardo Lorca, Rio
Bom, hoje era sem assunto, até que virou o dito, dando a volta por cima. O caso é que, segundo lembro, és craque em dar a volta por cima. Como é o samba aquele? bah, eu sei que tu tens na cartola. Abr, Vera (Verissimo), Porto Alegre
Jovem Mario, bom dia
…. este é um bom desafio … Robert Escarpit escreveu para a primeira página do Le Monde durante 25 anos. Foram estimadamente 9000 microcrônicas (billets). “Au jour le jour ” ocupava a apenas 2,50cm por 5,00cm da página.
… mas tinha a massa do chumbo e o brilho do sol… Moisés Andrade, Olinda/Recife
Grato, Mario. Quando falta o assunto – já dizia o Nelson – recorra ao sexo: extravasará .. Abs, José Carlos Pellegrino, São Paulo

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