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Sua cabeça, a sua caixa preta

Você é o que você pensa, o que você lembra, o que lhe comove. O insight que, de tão revelador e sutil, não pode ser …

Você é o que você pensa, o que você lembra, o que lhe comove.

O insight que, de tão revelador e sutil, não pode ser comentado, a palavra falada não diz, não alcança o que o sentimento tenta dizer. Somos a solidão de carregar nossas pequenas e grandes descobertas, de conhecer em profundidade nossas misérias inconfessáveis, não que sejam de natureza imoral (às vezes sendo), mas porque a nossa caixa preta (felizmente) está regulada para viver os sentimentos do eu (identidade presumida), que melhor corresponde às nossas expectativas de humanidade. São elas que te deixam mais calmo, mais esperançoso, mais alegre, mais gentil, mais feliz, mais produtivo e até mesmo mais distraído.

Mas a pergunta  que fica rouca de perguntar é: então quem é aquele sujeito que mora em algum nicho do teu cérebro que, num repente de contrariedade, sai botando fogo pelas ventas, esbraveja cobras e lagartos, caveiras e escorpiões, cicuta e urtigas e raios que os partam e diabo que os carregue? Não sei quem é o seu, mas o meu é um cara que faço questão que não viva no silêncio do isolamento, na penumbra dos sentidos. Faço questão que viva estreito comigo, na chuva e no sol. Freud dizia que todos somos um pouco de tudo, portanto, um pouco louco também. Mas, se alguém tentar isolar o seu louco num porão do inconsciente, por exemplo, ele vai fazer muito barulho, de lá. Sozinho, isolado, sem ter com quem falar, ele vai começar a fazer loucuras.

Este psicopata, cretino, zureta, este débil mental que acelerou seu carro potente na direção de um numeroso grupo de ciclistas, tinha um louco varrido trancado nos seus porões. Seguramente, este retardado passou uma vida inteira recebendo ruídos e sinais do louco que carregava por dentro. Trabalhava no Banco Central, era inteligente, capaz, tinha uma boa renda. Mas era cego e descontrolado, como só os dementes perigosos o são. Na primeira pressão mais perturbadora para ele (foi contrariado por um grupo), sua fúria explodiu numa violência de pesadelo, e tentou matar dezenas de pessoas. Não tinha uma arma, um fuzil de repetição, como fazem os malucos americanos. Atirou com o carro.

Tomei conhecimento agora mesmo sobre o tenebroso epsódio em que um maluco fuzilou 15 crianças num colégio em Realengo, na zona leste do Rio. Não sei o que dizer, é a primeira vez que surge este tipo de banho de sangue no Brasil. É um assunto seríssimo e assustador e que pôs o Brasil na imprensa mundial hoje, dia 7 de abril. Se o Marco Aurélio, o cartunista de ZH, fizer piada com esse assunto, como costuma fazer sobre assuntos gravíssimos, juro que escrevo uma crônica sobre a caixa preta da cabeça do cartunista mais equivocado do Brasil, sobre seu lamentável julgamento sobre os fatos. E publico com cópia para o Nelson, desculpem o mau humor, mas uma notícia como esta, do Rio de Janeiro, também liquida com o astral de todo um país.

Autor

Paulo Tiaraju

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