Às vezes, ele se sentia nostálgico, recordando com detalhes dos despreocupados tempos de infância. Também lembrava de seu avô resmungando que quando a gente lembra demais do passado, é sinal que a velhice está chegando.
No entanto, Fermino das Dores não se considerava um velho. Sentia que as recordações faziam bem para o coração, que batia forte, como se ele estivesse de volta aos 20 anos. Frequentemente, tinha a impressão de que certas passagens da infância, tinham acabado de acontecer, despertando o desejo de vivê-las mais uma vez. Quando era jovem e repleto de sonhos, ele saboreava um tempo de descobertas e encantamentos. Lembrava com clareza de quando viajou pela primeira vez à cidade, a carroça sacolejando nas trilhas e estradas de terra batida. Deitado sobre pelegos, brincava de contar estrelas e quando enxergava as Três Marias, fechava os olhos e pedia que elas sempre estivessem lá, apontando o caminho.
Mais tarde, descobriu a aventura de viajar de barco a vapor. Na travessia da Lagoa, ele se esgueirava para fora da cabina e ficava no convés varrido pelo vento e respingos das ondas. Se aquietava no cobertor e passava a noite procurando estrelas no céu sem lua. Aquele encanto duraria pouco – os velhos barcos a vapor foram aposentados e ficaram apodrecendo no cais abandonado. Nos ônibus com ar condicionado, Fermino sentia falta do ar da noite e permanecia acordado, ansiando pela chegada. Não havia muito a fazer na cidade, o que mais queria era rever o fazendeiro, exilado no alto do morro.
Quando o amigo abriu um sorriso largo e enxugou os olhos com a manga, Fermino soube que fizera uma coisa boa. Havia preparado a cesta de vime com todos os cuidados, imaginando que o amigo devia sentir falta da morcilha negra, do mel de florada de anjico, da coalhada de leite de ovelha e dos grandes pêssegos maracotões, que eles comiam escondidos no pomar da velha fazenda. Os dois sentaram-se na varanda do apartamento, olhando ao longe a cidade que começava a se movimentar. No horizonte, as nuvens se abriram e o rio brilhava como uma bandeja de prata. Quietamente, eles morderam os pêssegos maduros, deixando o sumo escorrer pelo queixo e pingar na roupa, se sentindo de novo crianças.
Depois de um tempo, Fermino lembrou que estava chegando a época de tosquiar as ovelhas, notando que o amigo desviava os olhos para as terras do outro lado do rio. Nas fazendas, quando a tosquia terminava, era costume reunir a peonada para um assado debaixo das árvores. Os tosquiadores exaustos e sedentos iam chegando, a guampa com caña entretendo a fome, enquanto a carne assava nos longos espetos.
Fermino achou que tinha chegado a hora e perguntou ao amigo quando ele ia voltar para o campo. Não foi preciso esperar muito – o ex-fazendeiro, que não era de muito falar – foi até a sala e voltou com um livro nas mãos. Em voz calma, respondeu que resolvera vender o apartamento para comprar de volta sua antiga fazenda. Fermino sabia que não seria fácil reaver a fazenda, mas não disse nada. O amigo abriu o pequeno livro e começou a ler, usando a fala entoada dos payadores dos tempos antigos:
“Embora muitos digam que o paisano
tem alma de renegado,
não vai se achar nenhum
que não sofra pena dobrada”.
Houve uma pausa, enquanto as sombras do passado se dissipavam ao vento. Então Fermino respirou fundo, levantou os braços e retomou o versejar, exatamente do ponto em que o amigo havia parado:
“Quanto a mim, não me matam penas
Enquanto tenga o couro inteiro.
Que venga o calor do verão
E a geladeira do inverno
Porque se aflige o cristão?
Que não se afrouxa enquanto
le corra sangue nas veias e
possa ler seu fado nas estrelas”.
Fermino viajou naquela mesma noite. Se sentia jovem de novo, os alegres fantasmas estavam com ele. No alto do céu, as estrelas das Três Marias apontavam o caminho.

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