Quem vive com muita pressa, perde os melhores detalhes.
Quem vive devagar, perde o essencial. (Mario, auto-ajudando-se)
Fechou o livro e suspirou. Seu inconsciente decidiu por um novo suspiro e ele observou o suspiro acontecendo.
Levantou-se pensando em suspiro ter vontade própria.
Daí o pensamento enredou-se nessas coisas que não são pensadas, mas existem.
Resolveu dividir as coisas não pensadas, mas que acontecem, entre as físicas e as não-físicas.
Fome, por exemplo, é cobrança física, é o organismo precisando de alimento. Sede, idem.
Tesão é só cobrança física? Testosterona pura? Ou misturam-se, no tesão com alvo, testosterona e um padrão subjetivo de parceria sexual? E o amor só acontece entre uma parceria dentro do padrão já estabelecido?
Saudade é acontecimento autônomo, além de intangível? Não existe em outras línguas por ser inefável? Será o mais absoluto substantivo abstrato do idioma? Lembrou-se de categorias diversas como nostálgica saudade, vaga saudade, amarga saudade. E até de oxímoro como alegre saudade.
Incomodou-se com essa saraivada de perguntas não pensadas e condenou tudo ao esquecimento. Só não conseguiu abortar um novo suspiro.
Olhou a janela e resolveu dar uma caminhada, livrar-se dos pensamentos não autorizados e fazer a digestão mental de tudo que o maravilhara naquela recente leitura.
Despediu-se do livro com os olhos agradecidos, um sinal de retorno, ganhou a rua, felicitou-se por esse encontro ao ar livre com uma bela tarde em que a natureza repousava de suas agitações e, como fêmea voraz, oferecia-se para ser toda possuída, mas sem pressa.
Uma única pedra portuguesa, solta na calçada, realçava a harmonia do resto do conjunto. Essa observação reafirmou sua condição de otimista, pois o contrário seria que a pedra rebelde quebrava a harmonia do conjunto.
Aquela pedra no caminho remeteu-o, por acaso, ao poeta maior e ao seu mais comentado poema. Jamais se conformara em desconhecer qual seria aquela “pedra no meio do caminho”. Um gaiato de mau gosto diria que a pedra era a sogra. Ou um marido.
Lembrou-se da maldade do poeta quando, já consagrado, publicou um livrinho com todos os comentários negativos ao poema, só de gente famosa também. Maldosa, mas doce, muito doce vingança.
E a pedra? Uma pedra ou qualquer coisa pode ser a pedra fundamental da existência? Ou inaugural? O homem, o animal, a planta, já foi algo que ganhou vida? Qual o sentido da vida? Essa existência, qual o sentido? Se houver um sentido, fora do seu auto-sentido, qual seria?
Articulou duas respostas, ambas lógicas, mas sem possibilidades de provas.
O sentido da existência é a própria e, se assim entendida, se basta.
O outro sentido, secreto para os que vivem, é secreto para que a gente se ocupe só da vida que, enquanto existir, tem que ser preocupação e ocupação absolutas e únicas.
Percebeu que essas respostas excluíam as perguntas, pois estão à margem da compulsão de viver. São apenas um jogo de pensar, um tipo de passatempo solitário como o jogo de paciência nas cartas.
Admirou o jardim à sua volta, respirou fundo, diminuiu os passos, agradeceu e despediu-se da tarde. Tinha plena consciência de que estava cumprindo com zelo o ato de existir.
De volta, sentou-se, passou os dedos sobre o nome de Marcel Proust e voltou à leitura de um volume de “Em busca do tempo perdido”.
Havia, no gesto, a certeza de que aquela leitura resgatava parte de todo o seu tempo perdido.
Suspirou.
***
Inté.

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