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Tudo o que sei, aprendi no jardim de infância

A frase não é exatamente esta, mas chega perto. O original em inglês diz: “Tudo o que realmente vale a pena saber, eu aprendi …

A frase não é exatamente esta, mas chega perto. O original em inglês diz: “Tudo o que realmente vale a pena saber, eu aprendi no jardim de infância”.

O autor dessa declaração de princípios é Robert Fulghum, que a usou como título de um de seus saborosos livrinhos. Narra cenas prosaicas, retiradas do cotidiano de pessoas comuns, que nascem, vivem e são enterradas em comunidades rurais do interior norte-americano. Mas ele sabe resgatar o encanto das coisas simples, como o toque do sino na igrejinha no fundo do vale ou as pessoas nas varandas, apreciando em silêncio o espetáculo diário do nascer e do por-do-sol.

Lendo a biografia de Fulghum, descubro uma coincidência. Nascemos no mesmo mês e ano e temos uma mesma mania – escrever com velhas canetas-tinteiro. Ele também entesoura as memórias dos tempos de escola, e reverencia a sabedoria dos professores de infância, aqueles mesmos que nos ensinaram tudo o que valia a pena saber.

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É um escritor que se confunde com os livros que escreve. Com a barba branca e óculos de professor de província, parece um personagem saído de um de seus livros mais irreverentes: “Uh-Oh, Aí vem o Natal de Novo”.

Publicou apenas oito livros – sempre em formato de bolso – e todos eles figuraram na lista dos best-sellers. Mas, contrariando o figurino habitual, Robert Fulghum não convive com outros escritores, não frequenta festas nem coquetéis. No lançamento de “Tudo o que realmente vale a pena saber, eu aprendi no jardim de infância” em New York, se viu cercado por uma multidão de leitores. Depois de muitas centenas de autógrafos e algumas cãibras, pediu licença para ir ao banheiro e não mais voltou.

Vendeu 16 milhões de exemplares, atingiu o nirvana dos escritores, onde passou a usufruir com pulcritude os frutos de seu talento. Atualmente, passa seis meses na casa (que ele mesmo construiu) junto ao lado de Seattle e, quando chega a temporada de chuvas, foge para sua vila na ilha de Creta.

Antes de seu primeiro livro se tornar um clássico e dominar a lista de best-sellers do The New York Times por um ano e meio, Fulghum experimentou um pouco de tudo: foi entregador de jornais, vaqueiro no Texas, estudante de teologia, guitarrista e cantor de música country.

Trabalhou na IBM, mas sua amizade com os laptops não foi duradoura – ainda hoje escreve contos e novelas usando uma velha caneta Parker Duofold de 1924.

Quando não está escrevendo, viaja para lugares singulares, como as montanhas de Utah ou o deserto da Mongólia. Mas também pode ser encontrado no atelier de pintura de sua casa ou tocando guitarra com sua banda de rock-de-garagem.

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Escreve como se fosse um Falstaff – contrapondo o joie de vivre aos desconfortos e contratempos, que nos impedem de apreciar as boas coisas que estão acontecendo ao nosso redor. Ele lança um facho de ironia e bom humor nos rituais diários, fiel ao seu credo de que o melhor que se aprende quando criança é a capacidade de deslumbrarmento.

Suas vinhetas de vida parecem ter escapado de nossas próprias lembranças – o sapateiro que esconde balas nos sapatos das crianças que os pais deixam para consertar, o entregador de jornais que entoa salmos nas portas das casas na semana do Natal.

Ao ler "Do Início ao Fim – Os Rituais de nossa Vida”, guardamos a sensação de que o escritor tomou emprestado episódios de nosso passado, ao mostrar situações pelas quais já passamos algum dia ou personagens que temos a certeza de ter encontrado em algum lugar.

Outro livro bom para a mesa de cabeceira é “Palavras que eu gostaria de ter escrito”, um tributo aos autores que o fizeram repensar a forma de ver a vida: Albert Camus, Dylan Thomas, Marcel Prost, Corman Macarthy e até uma escritora de livros infantis da época vitoriana, Beatrix Porter.

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Fulghum tem pensamentos incomuns sobre coisas comuns, mas seu texto é inspirador. Refletindo sobre a condição do escritor, rabisca em seu caderno:

“Sou um contador de estórias. Algumas vezes, tenho que admitir, invento coisas para embelezar um caso. E em outras vezes, conto a verdade sem nenhum verniz, exatamente como ela aconteceu. Como quando escrevia hoje cedo. E tenho testemunhas. Há marcas do lado de fora da janela, na neve que caiu de manhã. Evidências da primavera – lá fora e aqui dentro”.

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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