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Um certo bar, em algum lugar

      O bar ideal, aquele bar pelo qual sempre procuramos, mas que raramente encontramos, não possui endereço nem localização precisa. Não aparece …

 

 

 

O bar ideal, aquele bar pelo qual sempre procuramos, mas que raramente encontramos, não possui endereço nem localização precisa. Não aparece na tela de nenhum GPS, mas está gravado nos mapas de nossa geografia sentimental. Mas este bar perfeito existe e aguarda por nós nas memórias de antigas ilusões.

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Neste bar de sonhos, onde tentamos nos refugiar das asperezas do mundo, existe um personagem onipresente. Ele fica atrás do balcão, nos conhece pelo nome e sabe como preparar o dry martini perfeito. Com um pouco de sorte, podemos encontrá-lo ao longo de nossos caminhos. Já topei com ele em New York, polindo copos em um pub irlandês, escondido em uma esquina da 6a. Avenida. Também foi visto no bar do antigo Hotel Alvear, em São Paulo, e no fugaz Je Reviens, em Porto Alegre, aquele que se debruçava sobre o Largo dos Medeiros.

O refúgio que buscamos pode ser um clássico bar vitoriano, impregnado de história e lendas, como o Bull & Bear, do Waldorf Astoria. Ali era o segundo lar de Truman Capote. Fumava piteira e tomava cocktails de champanha, enquanto rabiscava nos guardanapos de papel. A sensação de saber que chegamos em casa também pode acontecer ao entrar em uma taverna na Costa Oeste. E se houver uma placa sobre a porta com o nome Hog’s Breath, temos a certeza de que chegamos ao lugar certo. Só falta procurar a mesa onde Clint Eastwood se deixava ficar por tardes inteiras, bebericando bourbon sem gêlo e revisando roteiros de filmes.

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Para o viajante solitário, o bar perfeito é um canto em algum lugar aonde chegamos, olhamos ao redor e soltamos um suspiro há muito guardado. O corpo relaxa, a imaginação se liberta, enquanto benfazejas lembranças de outros tempos e outros bares nos vêm fazer companhia. O homem atrás do balcão se parece com um velho conhecido. Ele ouve com atenção nossas estórias e nos serve o drinque que precisamos beber.

Na Porto Alegre de outrora existiu, por breve tempo, um lugar parecido, a Confeitaria Atlântida, no início da Independência. Funcionava como confeitaria durante o dia e, à noite, era nosso refúgio, quando saíamos dos ensaios de teatro amador, no auditório do Belas Artes. Um uruguaio de gravata borboleta e fala mansa nos atendia como se fôssemos velhos amigos. O chamávamos de “el señor Faillace” e, com seu chá inglês e uma impecável torrada americana, era um segundo lar para muitos de nós.

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A busca pelo bar perfeito, em cidades distantes ou nas esquinas de antigas vizinhanças, replica o inconsequente desejo de voltar o relógio, refazer o encontro que não aconteceu ou retomar o caminho para o qual faltou coragem. Nestas jornadas surpreendentes, amanhã ou depois, vamos dobrar uma esquina dos anos 40 e avistar um letreiro já visto tantas vezes. Sentaremos em uma mesa próxima ao balcão, onde um bartender, em seu jaleco branco, prepara cocktails, usando o shaker à moda antiga. Ele não indaga o que queremos e nos serve um “Old Fashioned” ou um “Alexander”. Quando procurarmos nos lugares certos, os sonhos podem estar mais próximos do que parecem.

Depois de algumas doses, chega o pianista e começa a dedilhar esquecidas melodias. Ele se parece tanto com Dooley Wilson que não ficaremos nem um pouco surpresos se uma elegante dama com um grande chapéu branco entrar pela porta.

Neste momento, o pianista negro abrirá um sorriso e tocará os primeiros acordes de “As Time Goes By”.

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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