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Um cravo é um cravo é um cravo

Hoje, segunda-feira, 23, no Rio, é feriado: Dia de São Jorge. Inda que a padroeira das putas seja a Santa Maria Madalena, não sei …

Hoje, segunda-feira, 23, no Rio, é feriado: Dia de São Jorge.

Inda que a padroeira das putas seja a Santa Maria Madalena, não sei o motivo pelo qual sempre vi imagens de louça ou estampas do santo guerreiro nas “salas de espera” de prostíbulos, homenageado por velas ou lamparinas.

Entre referências pessoais, São Jorge foi um importante interlocutor invisível do personagem principal da minha farsa “O Despacho”.

Resolvi iluminar-me com a memória da escritora, poeta, ativista feminina, homossexual assumida, verdadeira “padroeira” de artistas, Gertrude Stein, responsável pela expressão “Geração Perdida”, referente aos jovens que, na década de 1920, oriundos dos Estados Unidos, como ela, ou de países da Europa, ou mesmo franceses, nomes que militavam na vanguarda das letras e das artes e que frequentavam seu endereço, 27, rue de Fleurus, 6th arrondissement, onde ela morava, desde 1903, com a também norte-americana Alice Toklas.

Gertrude Stein foi um tipo de padroeira de talentos jovens ou mesmo mais idosos que buscavam o reconhecimento artístico.

Essa “geração perdida” – Apollinaire, Cole Porter, Derain, Ezra Pound, Francis Picabia, Hemingway, James Joyce, Jean Cocteau, Juan Gris, Luis Buñuel, Matisse, Picasso, Scott Fitzgerald e T.S. Eliot, entre muitos outros – acabou desmentindo Stein, pois encontraram a fama e muitos deles são chamados de gênios, como Picasso.

Graças à diferença de idade, à sua fortuna e à condição de anfitriã, Stein e o espírito festeiro de Scott Fitzgerald (O Grande Gatsby, O Lado do Paraíso, Suave é a Noite…) devem ter dado o clima para o famoso livro de Hemingway Paris é uma Festa, retrato daqueles “anos dourados” que fizeram da “Cidade Luz” (para dizerem que não evito os lugares-comuns) o ponto de encontro de tantos talentos. E Stein, 25 anos mais velha que Hemingway, por exemplo, era a “mãezona”, pródiga, muito pródiga na compra e na indicação – para pessoas de fortuna – de trabalhos à venda.

Pois foi nesse clima e com personagens daquela época que Woody Allen, em 2010, fez um dos melhores filmes de sua carreira de sucessos: Meia-Noite em Paris (Oscar de roteiro original), cujo enredo, é evidente, foi calcado na bibliografia existente e no conhecimento da obra, da vida e da personalidade de seus muitos personagens, como Picasso, Fitzgerald e Zelda, Dalí, Buñuel, T. S. Eliot, Hemingway e, já em outros tempos mais remotos, Toulouse Lautrec.

A fantasia de Woody Allen permite momentos engraçados como o personagem central dando umas dicas para Buñuel daquilo que seria, mais tarde, o roteiro do cineasta de A Bela da Tarde para sua obra-prima O Discreto Charme da Burguesia.

Gertrude Stein se dizia gênio e era, de fato, um gênio, mas um gênio tão avançado para sua época que sua poesia, por exemplo, transgredia a tudo que existia no gênero. Por ser inatingível por um público menos especializado em literatura e ser um desafio aos críticos mais argutos, a poesia de Gertrude nunca conseguiu sair dos círculos mais especializados. Em termos de poesia, Stein nunca foi um nome discutido em sua época, inda que instigante com o uso da tautologia (em síntese, um sistema repetitivo de ideias e palavras), da qual o verso “uma rosa é uma rosa é uma rosa é uma rosa” conseguiu notoriedade e levava à compreensão de que, independente de qualquer predicado, a rosa é uma rosa, ou seja, a essência de uma rosa é única e é uma rosa. Esse verso lembra Shakespeare em sua colocação sobre a nomenclatura das coisas (na tradução de Onestaldo Penafort): “se a rosa não se chamasse rosa, seria ela porventura menos perfumosa?”  

Gertrude, uma personagem tão fascinante que nos dá pena não haver frequentado seu endereço naquele edifício de seis andares em Montparnasse.

Inté inté inté.

Vitrine

(Sobre uma coluna antiga – Prezado Mario de Almeida, parabenizo pelas lindas palavras, onde o senhor relatou quase ou todo histórico de Antonio Abujamra. Realmente, é um homem sábio… Aqui é mais um fã e admirador do Abujamra. Abraços, Sérgio Santos, SBAT/RJ, Rio)

Continua excelente! Carlos Alberto (Pereira), oficial da marinha reformado, Rio

Já tô aqui de novo. Mero acaso, nada de vigilâncias. Acontece que gostei do começo, do meio e do fim da coluna de hoje. Por que assim separados? Cada um com seu quê. Gostei do título, é isso mesmo. O meio tem um recheio gostoso. É isso mesmo. O fim é de matar de bom. És assim mesmo. Obrigada por te trazeres para o sul. Tchau. Dorme em paz. Bj, Vera (Verissimo), psicóloga, Porto Alegre.

Viva Júlia, viva nossos netos que, sem dúvida, são reedições melhoradas de nós mesmos. Tenho nove e sou (meio) assumidamente babão. Abraço deste seu amigo-coruja, Nelson (Gomes), publicitário, São Paulo

Beleza, como sempre, um gigante. (Antonio) Abujamra, diretor, ator, entrevistador, um profissional das ideias e das artes, São Paulo

Bom dia, mano: Coelho faz mesmo coelho virar coruja. Parabéns pelo quarto lugar da Júlia. Quarto é uma coisa fantástica no meio de 3500 candidatos. Ela foi a primeira entre 3497 candidatos! Lembre-a que o sítio ainda está aqui e convide-a para vir passear. Não esqueça de dizer que o tio-avô deu-lhe os parabéns. Esta família vai longe! Um abração. Coelho (Eduardo Coelho Pinto de Almeida), irmão, empresário imobiliário, São Paulo

Caro Mário, sua frase introdutória: “A cada dia que passa fico mais distante do meu nascimento” veio hoje justo no dia de meu aniversário (17.04), realçando a realidade crua e nua que nos cerca, no meu caso ainda mais contundente, pois literalmente entrei na dita terceira idade (65), mas assim como os novos meninos citados na crônica que nos assombram com suas precocidades, espero também corresponder com uma velhice que não perca a motivação de viver a vida sempre. Aderbal Vieira de Moura, executivo do mercado financeiro, Rio

Caro colunista, gostei de sua última coluna, “Pé na tábua”, mas senti falta de sua despedida otimista: “Inté”. Fui dormir carente. Inté. Luciana Alvarenga, professora, Brasília, DF

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Autor

Mario de Almeida

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